sexta-feira, 3 de abril de 2015

Os habitantes do "melhor lugar do mundo"

Aos meus Pais e à M.
Aos habitantes do "melhor lugar do mundo"

Vinte e cinco anos depois voltamos ao "melhor lugar do mundo", todos juntos, os progenitores e a prole, com mais um ser que, à época, nem existia. 
M. tem vinte e três anos, não viveu esta vida, não conheceu os dois habitantes do "melhor lugar do mundo", embora Ele ainda a tenha enroscado no colo e olhado para ela sabendo quem ela era, apesar de estar preso à cadeira de rodas e ao incomunicável que breve cedeu ao silêncio. Ela nunca soube que M. viria a ser quem é e M. nunca a olhou nem lhe sorriu. Mas Ela teria amado M. como me amou, teria ralhado, abraçado, mimado, como fez comigo nos meus primeiros cinco anos de vida. 
Instintivamente, a minha mãe vai ao armário, desce do quarto trazendo no braço o casaco de malha grossa encarnado que Ela vestia nessa 5ª feira, no "dia para esquecer". 
Seguimos, seguimos todos, estrada fora, até aparecerem os tão bem conhecidos pináculos góticos rendilhados, à vista dos quais a minha mãe começava a cantarolar à criança do banco de trás entusiasmada. Vinte e cinco anos depois, voltamos juntos ao Mosteiro de Santa Maria da Vitória, à Vila da Batalha. A mesmíssima criança - agora com os seus trinta, continua no banco de trás, mas a mãe não vai cantarolar. No entanto, mesmíssima é a emoção sentida quando o Mosteiro preenche a imagem da janela do carro quando se dá a curva. E agora, no banco de trás, tenho M. ao meu lado.
Subimos a encosta e o calor envolve-nos, a tarde ensolarada não traz porém lágrimas, mas uma saudade imensa, como se nada daquilo fosse real. Passei a mão pela pedra macia, empoeirada, com os nomes deles e as letras a sumirem-se pelo desgaste do tempo.
Vinte e cinco anos depois voltei ao Mosteiro da Batalha e Ela levou-me pela mão, criança de novo, e eu corri nave fora, iluminada pelo sol que surgia dos vitrais e ria-me porque o fim do caminho era o colo dela. 
Mostrámos o Mosteiro a M., mostrámos a casa, o "melhor lugar do mundo", a oficina dele, a envolvência, a vida que M. não viveu, mas vive através de nós.
Não vou perdê-los nunca, porque vivem em mim, mas as letras, ainda que símbolos, serão reavivadas e o casaco de malha grossa encarnado que a minha mãe veste agora, vesti-lo-á M. ou eu um dia. 
Apesar do "dia para esquecer" ter existido numa 5ª feira há vinte e cinco anos, eu sou Eles e Eles continuam aqui.

“De toda a tragédia que foi o teu fim, tu ressuscitaste e és agora a presença iluminada de ti. Há o teu ser profundo que não morre nem envelhece”,
Vergílio Ferreira, Cartas a Sandra
 
Ele&Eu, Vila da Batalha, 1989


Ela&Eu, Vila da Batalha, 1989







domingo, 22 de março de 2015


O acto de ler reabre feridas. Nos livros
em que isso acontece, com frequência,
poderia ao menos haver um aviso na capa;
assim como se faz com as carteiras de tabaco,
embora se saiba que poucos deixam
de fumar
por isso.


Teresa M. G. Jardim
in Jogos Radicais

quarta-feira, 11 de março de 2015

Agora as Palavras

Obedecem-me agora muito menos
agora as palavras. A propósito
de nada resmungam, não fazem
caso do que lhes digo,
não respeitam a minha idade.
Provavelmente fartaram-se da rédea,
não me perdoam
a mão rigorosa, a indiferença
pelo fogo-de-artifício.
Eu gosto delas, nunca tive outra
paixão, e elas durante muitos anos
também gostaram de mim: dançavam
à minha roda quando as encontrava.
Com elas fazia o lume,
sustentava os meus dias, mas agora
estão ariscas, escapam-se por entre
as mãos, arreganham os dentes
se tento retê-las. Ou será que
já só procuro as mais encabritadas? 


Eugénio de Andrade, O Sal da Língua

quinta-feira, 5 de março de 2015

(que os meus egrégios avós me perdoem)

Portugal 
 Portugal
Eu tenho vinte e dois anos e tu às vezes fazes-me sentir como se tivesse
oitocentos
Que culpa tive eu que D. Sebastião fosse combater os infiéis ao norte de África
só porque não podia combater a doença que lhe atacava os órgãos genitais
e nunca mais voltasse
Quase chego a pensar que é tudo uma mentira
que o Infante D. Henrique foi uma invenção do Walt Disney
e o Nuno Álvares Pereira uma reles imitação do Príncipe Valente
Portugal
Não imaginas o tesão que sinto quando ouço o hino nacional
(que os meus egrégios avós me perdoem)
Ontem estive a jogar póker com o velho do Restelo
Anda na consulta externa do Júlio de Matos
Deram-lhe uns electro-choques e está a recuperar
àparte o facto de agora me tentar convencer que nos espera um futuro de rosas
Portugal
Um dia fechei-me no Mosteiro dos Jerónimos a ver se contraía a febre do Império
mas a única coisa que consegui apanhar foi um resfriado
Virei a Torre do Tombo do avesso sem lograr encontrar uma pétala que fosse
das rosas que Gil Eanes trouxe do Bojador
Portugal
Vou contar-te uma coisa que nunca contei a ninguém
Sabes
Estou loucamente apaixonado por ti
Pergunto a mim mesmo
Como me pude eu apaixonar por um velho decrépito e idiota como tu
mas que tem o coração doce ainda mais doce que os pastéis de Tentúgal
e o corpo cheio de pontos negros para poder espremer à minha vontade
Portugal estás a ouvir-me?
Eu nasci em mil novecentos e cinquenta e sete Salazar estava no poder nada de ressentimentos
O meu irmão esteve na guerra tenho amigos que emigraram nada de ressentimentos
Um dia bebi vinagre nada de ressentimentos
Portugal depois de ter salvo inúmeras vezes os Lusíadas a nado na piscina municipal de Braga
ia agora propor-te um projecto eminentemente nacional
Que fôssemos todos a Ceuta à procura do olho que Camões lá deixou
Portugal
Sabes de que cor são os meus olhos?
São castanhos como os da minha mãe
Portugal
gostava de te beijar muito apaixonadamente
na boca

Jorge Sousa Braga
Em De Manhã Vamos Todos Acordar Com Uma Pérola No Cu, 1981

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

com uma esferográfica cravada no coração

Mais Nada se Move em Cima do Papel

mais nada se move em cima do papel
nenhum olho de tinta iridescente pressagia
o destino deste corpo

os dedos cintilam no húmus da terra
e eu
indiferente à sonolência da língua
ouço o eco do amor há muito soterrado

encosto a cabeça na luz e tudo esqueço
no interior desta ânfora alucinada

desço com a lentidão ruiva das feras
ao nervo onde a boca procura o sul
e os lugares dantes povoados
ah meu amigo
demoraste tanto a voltar dessa viagem

o mar subiu ao degrau das manhãs idosas
inundou o corpo quebrado pela serena desilusão

assim me habituei a morrer sem ti
com uma esferográfica cravada no coração

Al Berto, “O Medo”

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

Segurar a mãos ambas um sentido para tudo isto

-Conhecias o Pina? Sim, o noivo da Ester. Teve um desastre, operei-o, morreu.
-O Pina...?
Mas reagiu prontamente, animando o marido:
- Fizeste o que pudeste, tenho a certeza. Porque te afliges?
-Tinha vísceras esmagadas, um braço esmagado, Paula. Operei-o, morreu. Ia casar em breve. Morreu.
Ela ficou em silêncio, de mãos dadas no regaço, e a noite cresceu entre eles - uma noite maravilhosa, absoluta, fremente de memórias. "Recuperar a vida com a morte no meio. Acreditar, embora se saiba que se acredita no nada. Tão difícil. E tão raivosamente necessário.".
-Se tu tocasses um pouco, Paula.
-Mas tu... Tão tarde, Cipri. Os filhos dormem.
-Baixinho.
Paula não tocou. Mas armou o gira-discos, regulou a intensidade do rádio. E a noite revelou-se numa profunda harmonia, como uma verdade tranquila. Cirpiano abriu as janelas para a cidade, para o rio ao longe, olhou ao alto, no céu húmido, pelos espaços abertos entre as nuvens, o brilho fugitivo das estrelas. "Segurar a mãos ambas um sentido para tudo isto. E ser feliz na resignação". Bach cantava. Cantava nos limites do universo para a luz fria dos astros, para o silêncio dos espaços, fechado de recolhimento, de melancolia grave. E Cipriano, segurando a mão de Paula, sentia comovidamente que o mistério do mundo, da vida e da morte, se revelava a seus olhos, apaziguado, como uma simples flor aberta...

Vergílio Ferreira (1982), Cântico Final, Círculo de Leitores, p.118.

quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

Que pretendes?, perguntou em grego. Venho render-te, disse o homem.



  A sua viagem fora preparada com todo o pormenor. Aterrou no aeroporto de Hania, recolheu a mala, passou pelo balcão da Hertz, recolheu as chaves do carro. Três dias?, perguntou-lhe o empregado, atónito. Que tem isso de estranho?, disse ele. Ninguém vem a Creta fazer três dias de férias, respondeu o empregado com um sorrido. É um fim-de-semana prolongado, disse ele, para o que tenho de fazer, chega.
  Era bonita, a luz de Creta. Não era mediterrânica, era africana; para chegar ao Beach Resort levaria hora e meia, duas, no máximo, mesmo que fosse devagar havia de chegar pelas seis, um duche e punha-se logo a escrever, o restaurante do hotel estava aberto até às onze, era quinta-feira à tarde, contou pelos dedos: sexta, sábado, e domingo inteirinhos, três dias por inteiro. Era o bastante: já levava tudo escrito na cabeça.
  Por que virou à direita naquele semáforo era coisa que não saberia dizer. Os pilares da via rápida avistavam-se perfeitamente, a uns quatrocentos ou quinhentos metros entraria na marginal, a caminho de Heraklion. E no entanto, virou à direita, onde uma pequena placa azul assinalava uma localidade desconhecida. Pensou que já lá estivera, porque viu tudo num segundo: uma estrada ladeada de árvores com meia dúzia de casas, uma praça acanhada com um monumento desengraçado, uma moldura rochosa, uma montanha. Foi um fulgor. Uma daquelas coisas estranhas que a medicina não sabe explicar, disse para com os seus botões, chamam eles a isto déjà vu, algo que já se viu, nunca me tinha acontecido. Mas aquela explicação não o tranquilizou, porquanto o já vivido persistia, era mais forte do que aquilo que ele via, envolvia como uma membrana a realidade circunstante, as árvores, os montes, as sombras do entardecer, o próprio ar que respirava. Sentiu-se tomado por uma forte vertigem e receou ser sugado por ela, mas foi coisa de um instante porque, ao dilatar-se, aquela sensação sofria uma estranha metamorfose, como se uma luva, ao voltar-se do avesso, levasse consigo a mão que a protegia. Tudo mudou de perspectiva, num ápice experimentou a embriaguez da descoberta, uma náusea subtil e mortal melancolia.
  Mas também um sentimento infinito de libertação, como quando percebemos finalmente qualquer coisa que sabíamos desde sempre e queríamos ignorar: não era o já visto que o engolia num passado nunca vivido, ele é que o capturava num futuro ainda por viver. Enquanto conduzia naquela estrada rodeada de olivais a caminho das montanhas, sabia que a certa altura havia de encontrar uma velha chapa ferrugenta cravejada de buracos onde estava escrito: Monastiri. E que havia de segui-la. Agora tudo se tornara claro.

António Tabucchi, “Contratempo”, in O Tempo Envelhece Depressa, D.Quixote, 20094,  p.143