sexta-feira, 28 de janeiro de 2022

que manhã cedo ensaia a dança

 

Um homem na cidade

Agarro a madrugada
como se fosse uma criança
uma roseira entrelaçada
uma videira de esperança
tal qual o corpo da cidade
que manhã cedo ensaia a dança
de quem por força da vontade
de trabalhar nunca se cansa.

Vou pela rua
desta lua
que no meu Tejo acende o cio
vou por Lisboa maré nua
que se deságua no Rossio.

Eu sou um homem na cidade
que manhã cedo acorda e canta
e por amar a liberdade
com a cidade se levanta.

Vou pela estrada
deslumbrada
da lua cheia de Lisboa
até que a lua apaixonada
cresça na vela da canoa.

Sou a gaivota
que derrota
todo o mau tempo no mar alto
eu sou o homem que transporta
a maré povo em sobressalto.

E quando agarro a madrugada
colho a manhã como uma flor
à beira mágoa desfolhada
um malmequer azul na cor.

O malmequer da liberdade
que bem me quer como ninguém
o malmequer desta cidade
que me quer bem que me quer bem!

Nas minhas mãos a madrugada
abriu a flor de Abril também
a flor sem medo perfumada
com o aroma que o mar tem
flor de Lisboa bem amada
que mal me quis que me quer bem!

Ary dos Santos

quinta-feira, 27 de janeiro de 2022

e quem nunca? eppur si muove... :)

Mártires da Ciência

O poder não gosta da ciência porque ela o coloca em causa, em busca da luz ou das possíveis luzes e verdades. Galileo foi obrigado a negar a sua teoria heliocêntrica, por contrariar os dogmas religiosos e, por isso, foi mantido em prisão domiciliária toda a vida (eppur si muove!).

Giordano Bruno, filósofo italiano, poeta, foi julgado e condenado à morte na fogueira por heresia, por se negar a desmentir o que havia proclamado: era um místico e propôs a ideia de que o Universo é infinito, concebendo-o como um continuum. Mas não só. 

O que talvez tenha ditado a sua sentença foram, sem dúvida, as suas ideias pouco ortodoxas, que o puseram na linha de fuzilamento da Inquisição - ter duvidado (e quem nunca?) da Trindade, da Transubstanciação, da Condenação Eterna (aka Inferno) e da própria divindade de Cristo. Mais do que propriamente o peso das suas ideias filosóficas de um pluralismo cósmico, de um Universo continuum, sem centro, onde nada é fixo, nem as estrelas, e tudo é relativo como o tempo e o movimento, e onde Deus é a mente universal, a substância inerente a todas as coisas e nunca externa. Giordano apresentou ainda a proposta das estrelas serem sóis distantes, cada uma delas rodeada por mais planetas. e voamos para o livro Escrever, de Vergílio Ferreira: "Para que percorres inutilmente o céu inteiro à procura da tua estrela? Põe-na lá.

Ohhh!

E que bela ideia a de Giordano, se reflectirmos, a de um acentrado continuum universal, pois se estamos sempre em evolução... se estamos sempre em movimento e (e)motion, em translação e rotação, o cérebro não pára, não é? Um brinde a quem diz o que pensa (sob pena de não aceitação e até mesmo de condenação à morte), e a quem mais não quis senão partilhar ideias, lutando pela união dentro das diferenças e a tolerância na cristandade e nunca defendendo a cisão sangrante que continuadamente se verifica.


Giordano Bruno, estátua de bronze por Ettore Ferraro, Campo de' Fiori, Roma (local de execução)
Giordano Bruno, estátua de bronze por Ettore Ferraro, 
Campo de' Fiori, Roma (local de execução)


Knower - Worlds Upon Worlds

domingo, 23 de janeiro de 2022

Fome de viajar

"A viagem não acaba nunca. Só os viajantes acabam. E mesmo estes podem prolongar-se em memória, em lembrança, em narrativa. Quando o visitante sentou na areia da praia e disse:

Não há mais o que ver”, saiba que não era assim. O fim de uma viagem é apenas o começo de outra. É preciso ver o que não foi visto, ver outra vez o que se viu já, ver na primavera o que se vira no verão, ver de dia o que se viu de noite, com o sol onde primeiramente a chuva caía, ver a seara verde, o fruto maduro, a pedra que mudou de lugar, a sombra que aqui não estava. É preciso voltar aos passos que foram dados, para repetir e para traçar caminhos novos ao lado deles. É preciso recomeçar a viagem. Sempre".

Fome de viagem - Inês Homem de Melo

terça-feira, 18 de janeiro de 2022

What have you learned?

Thank you, R, for the beautiful movie* 



  • (Laurence Olivier) "I took you to pieces like a watch. And put you together again. It was a very intimate experience. I have never been able to forget it. May I ask you a question?"

  • (Anthony Quinn) "You never hesitated before."

  • (Laurence Olivier) "That is true."

  • (Laurence Olivier) "This is you. Political prisoner 103592R, Kiril Pavlovich Lakota. All of you is here, from the day you were born until now. Except for the answer to one question. What have you learned in twenty years of confinement?"

  • (Anthony Quinn) "That is a big question, Piotr Ilyich."

  • (Laurence Olivier) "The answer is important to me, you know."

  • (Anthony Quinn) "What I have learned? I have learned that without some kind of loving a man withers like a grape on a dying vine."

  • (Laurence Olivier) "Is that all?"

  • (Anthony Quinn) "I am trying to learn more."

  • (Laurence Olivier) "Have you learned enough to face freedom?"

  • (Anthony Quinn) "I have been free for a long time. Not entirely, perhaps. But you have not answered my question. Why have you brought me here?"

  • (Laurence Olivier) "I want to show you a world gone mad."
The Shoes of the Fisherman, 1968

domingo, 12 de dezembro de 2021

ser olhado, amado e conhecido

Faleceu um amigo de repente, de manhã.

e, na homilia de hoje, o tema do terceiro domingo de advento foi a Alegria.

complexo poder sentir tudo isto num só dia, mas esta Alegria é uma alegria que não é de instagramer, de gargalhada fútil e superficial, é uma alegria de sentir a companhia e o apoio do Senhor no caminho, ainda eu não sei bem o que isso significa. e o meu amigo faleceu e não o verei mais ao balcão com aquele sorriso pândego ébrio, no ambiente de maresia.

estava o meu corpo lá e a mente vagueava, por todo o lado, pelos textos que iam lendo, pelos (a)braços abertos do Cristo de madeira, pelo hossana que se escutava nas vozes límpidas dos jovens. 

sei por que venho aqui: a música enleva-me.

de repente, a mente vagueando, o padre disse "e cito de novo o poema de Sophia de Mello Breyner", 

orelhas em riste, ah espera, que isto é o que me faz sentido, misturar livros, dissolver palavra na palavra, saborear cada sílaba e a poesia de cada texto, já que o texto é sagrado, qual deles? não são todos? imortalização de palavras, escrevo para ser dizia o meu Vergílio Ferreira. eu escrevo para ver se sai de mim esta ansiedade que não me deixa dormir há meses uma noite sem pesadelos.

oh, Sophia! Sophia na boca dos Jesuítas, porque quem caminha com Deus é olhado, amado e conhecido. que assim seja.

"Escuto mas não sei

Se o que oiço é silêncio
Ou deus

Escuto sem saber se estou ouvindo
O ressoar das planícies do vazio
Ou a consciência atenta
Que nos confins do universo
Me decifra e fita

Apenas sei que caminho como quem
É olhado amado e conhecido
E por isso em cada gesto ponho
Solenidade e risco"

Sophia de Mello Breyner

terça-feira, 26 de outubro de 2021

podemos ter várias vidas






por muito que nos abracem, nenhum abraço é semelhante àquele abraço reconfortante, em que parece que todas as nossas peças partidas se fundem e (re)colam magicamente.

segundo diz a Tokyo ( La Casa de Papel), podemos ter várias vidas.

já não cremos em nada. mas não deixa de ser uma das melhores séries que já vi. 

acreditemos em nós próprios, pois vidas não há mais. 








terça-feira, 5 de outubro de 2021

look at your life through heaven's eyes




Aos meus irmãos, Leonor e Roberto



"ela voltou-se suavemente de lado e mostrou-me o dia, preso numa parede cristalina de sono. Apresentou os seus segredos nocturnos ao mundo de olhos verdes e a mim",

in Aníbal, por Ross Leckie.


Quando te vês pelo olhar de um irmão e ele tem a capacidade de captar a tua essência, observas algo que se calhar não te aperceberas antes. E é maravilhoso sentires que te rodeiam seres humanos com abraços calorosos e amigos do coração.

Photos by Roberto Gil (nascer do sol, 2 de outubro 2021, Sto António da Neve, Trevim, Serra da Lousã)