Nunca encontrei verdadeira tranquilidade e nunca senti, como então, tantas saudades da minha cabana de Samoa, onde só o que há é uma esteira e um rolo de dormir, onde só o que chega até mim é a suave brisa do mar...
É verdade que nós exercemos pouco o saber a que o Papalagui chama "pensar", mas a questão que se põe é a de saber qual dos dois é mais estúpido, se aquele que não pensa muito ou se aquele que pensa em demasia. O Papalagui não pára de pensar: "A minha cabana é mais pequena do que a palmeira; a palmeira verga-se por causa da tempestade; ou isto é o fragor da tempestade!" É assim que ele pensa no que o preocupa. Mas também ele próprio é objecto dos seus pensamentos. (...)
Mas o Papalagui pensa tanto, que o acto de pensar se tornou um hábito, uma necessidade, e até mesmo uma coacção. Vê-se obrigado a pensar continuamente. Só muito a custo consegue não fazê-lo e deixar viver todas as partes do seu corpo ao mesmo tempo. Na maior parte do tempo vive apenas com a cabeça, enquanto os sentidos dormem um profundo sono. Muito embora isso o não impeça de andar normalmente, de falar, de comer e de rir, permanece fechado na prisão dos seus pensamentos - os quais são fruto da reflexão. Deixa-se por assim dizer embriagar pelos seus próprios pensamentos. Quando brilha um belo sol, logo ele pensa: "Que belo sol que está agora!" E continua a pensar, sempre a pensar: "Mas que belo sol!" Ora isso é falso, absolutamente falso, é uma aberração, pois quando o sol brilha, vale mais não pensar em nada. Qualquer Samoano sensato irá estender e aquecer o seu corpo ao sol, sem mais reflexões. E goza do sol não só com a cabeça, mas também com as mãos, com os pés, com as coxas, com o ventre, em resumo, com o corpo todo. Deixa a sua pele e os seus membros pensarem por si próprios, e eles pensam à sua maneira, por certo diferente da da cabeça. Os pensamentos barram amiúde o Papalagui, como um grande bloco de lava impossível de deslocar. (...)
O Papalagui é, regra geral, um ser vivo dominado por uma perpétua luta entre os seus sentidos e o seu espírito, um ser humano dividido em dois. (...)
Há, de resto, muitas maneiras de pensar e toda a espécie de alvos convém às setas do espírito. Que triste sorte a do homem que pensa em coisas tão longínquas como por exemplo: "Que irá acontecer amanhã, ao alvorecer do dia?" (...) É tão vã esta maneira de pensar, como é vão tentar ver o sol de olhos fechados, não se consegue. (...) Foi atingido pela grave doença de estar sempre a pensar.
Na Europa, dizem que este modo de proceder torna o espírito mais aberto e sedutor. Quando alguém pensa muito e com rapidez, diz-se que é uma grande cabeça. (...)
Nunca ninguém conseguiu trepar mais alto do que o cocoruto da palmeira a que se agarrou; chegando ao cimo teve que parar, por não haver mais tronco a que se agarrar para continuar a subir. Além do mais, o Grande Espírito não gosta da curiosidade dos homens; é por isso que estendeu, sobre todas as coisas, grandes lianas sem princípio nem fim. Eis a razão pela qual todo o indivíduo que siga até ao fim o fio dos seus pensamentos, se vê forçado a reconhecer que nem por isso ficou a saber algo mais (...)
Mas a maior parte dos doentes do pensamento persiste na sua voluptuosa paixão. (...)
Ser instruído significa: atravancar a cabeça com saber, até ela quase estoirar. (...) Todo o Papalagui tem por obrigação, acima de tudo, saber e pensar. (...)
Queridos irmãos que não pensais (...) será que realmente desejareis imitar o Papalagui e aprender a pensar como ele? Por mim digo "Não!" Pois devemos evitar tudo o que não fortifique o corpo (...) Acautelemo-nos, sobretudo, contra tudo o que nos possa fazer perder a alegria de viver, contra tudo o que possa ensombrar-nos o espírito, roubando-lhe a sua luz radiante...
O Papalagui, discurso de Tuiavii chefe de tribo de Tiavéa nos mares do Sul, trad. de L. Jorge, Edições Antígona, Lisboa 1988 (9ª ed), pp.111-120