Aos habitantes do "melhor lugar do mundo"
Vinte e cinco anos depois voltamos ao "melhor lugar do mundo", todos juntos, os progenitores e a prole, com mais um ser que, à época, nem existia.
M. tem vinte e três anos, não viveu esta vida, não conheceu os dois habitantes do "melhor lugar do mundo", embora Ele ainda a tenha enroscado no colo e olhado para ela sabendo quem ela era, apesar de estar preso à cadeira de rodas e ao incomunicável que breve cedeu ao silêncio. Ela nunca soube que M. viria a ser quem é e M. nunca a olhou nem lhe sorriu. Mas Ela teria amado M. como me amou, teria ralhado, abraçado, mimado, como fez comigo nos meus primeiros cinco anos de vida.
Instintivamente, a minha mãe vai ao armário, desce do quarto trazendo no braço o casaco de malha grossa encarnado que Ela vestia nessa 5ª feira, no "dia para esquecer".
Seguimos, seguimos todos, estrada fora, até aparecerem os tão bem conhecidos pináculos góticos rendilhados, à vista dos quais a minha mãe começava a cantarolar à criança do banco de trás entusiasmada. Vinte e cinco anos depois, voltamos juntos ao Mosteiro de Santa Maria da Vitória, à Vila da Batalha. A mesmíssima criança - agora com os seus trinta, continua no banco de trás, mas a mãe não vai cantarolar. No entanto, mesmíssima é a emoção sentida quando o Mosteiro preenche a imagem da janela do carro quando se dá a curva. E agora, no banco de trás, tenho M. ao meu lado.
Seguimos, seguimos todos, estrada fora, até aparecerem os tão bem conhecidos pináculos góticos rendilhados, à vista dos quais a minha mãe começava a cantarolar à criança do banco de trás entusiasmada. Vinte e cinco anos depois, voltamos juntos ao Mosteiro de Santa Maria da Vitória, à Vila da Batalha. A mesmíssima criança - agora com os seus trinta, continua no banco de trás, mas a mãe não vai cantarolar. No entanto, mesmíssima é a emoção sentida quando o Mosteiro preenche a imagem da janela do carro quando se dá a curva. E agora, no banco de trás, tenho M. ao meu lado.
Subimos a encosta e o calor
envolve-nos, a tarde ensolarada não traz porém lágrimas, mas uma saudade
imensa, como se nada daquilo fosse real. Passei a mão pela pedra macia,
empoeirada, com os nomes deles e as letras a sumirem-se pelo desgaste do
tempo.
Vinte e cinco anos depois voltei ao Mosteiro da Batalha e Ela levou-me pela mão, criança de novo, e eu corri nave fora, iluminada pelo sol que surgia dos vitrais e ria-me porque o fim do caminho era o colo dela.
Mostrámos o Mosteiro a M., mostrámos a casa, o "melhor lugar do mundo", a oficina dele, a envolvência, a vida que M. não viveu, mas vive através de nós.
Não vou perdê-los nunca, porque vivem em mim, mas as letras, ainda
que símbolos, serão reavivadas e o casaco de malha grossa encarnado que a minha mãe veste agora, vesti-lo-á M. ou eu um dia.
Apesar do "dia para esquecer" ter existido numa 5ª feira há vinte e cinco anos, eu sou Eles e Eles continuam aqui.
“De toda a tragédia que foi o teu fim, tu ressuscitaste e
és agora a presença iluminada de ti. Há o teu ser profundo que não morre nem
envelhece”,
Vergílio Ferreira, Cartas a Sandra
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| Ela&Eu, Vila da Batalha, 1989 |

