O plano inclinado: Vergílio Ferreira pelo Teatro O Bando
As primeiras impressões são mais do que agradáveis.
Depois de um dia repleto de passeio, sol, pique nique e descanso museológico,
saímos de Palmela bem indicados por um simpático desportista: a tarde caía já e
o caminho deserto levava-nos até à sede do Grupo de Teatro O Bando.
Uma casa comprida no meio das árvores aparece-nos na
estrada. Cortamos à direita na tabuleta e estacionamos. A vista para Palmela é
lindíssima e tiramos algumas fotos aproveitando a luminosidade que torna quase
postal o planalto do castelo. É cedo ainda, falta um quarto para as oito e já
lá pousam dois automóveis. Subimos o caminho e as escadinhas e entramos num
antigo celeiro todo decorado com chapéus de chuva coloridos, sofás pretos, almofadões.
As vigas do tecto estão pintadas com poemas a letra gorda e redonda. À esquerda
mesas meias postas, um balcão com petiscos. À direita uma mesinha com duas
meninas a receber. Lá dizemos ao que vimos, as reservas feitas, querem petiscos
ou o prato principal para jantar?, dois bilhetes. Lasanha e salada é o prato da
noite, vinho a colmatar, mas os petiscos são ainda mais convidativos, o pão a
espreitar da cestinha, o queijo, os pastelinhos de bacalhau. A sopa quentinha
está divinal pois apesar do dia quente começou já a arrefecer e avizinha-se um
serão fresco. Quando reservamos o bilhete por email, o grupo aconselha os
espectadores a trazer roupa confortável e quente, mas que de qualquer modo,
estarão sempre prevenidos com sacos cama e sacos de água quente… estranhamos a
mensagem, mas vamos preparados com agasalhos, No carro, casacos a mais, uma
camisola e meias. Em boa hora! Exploramos um pouco o terreno e caminhamos pelo
monte e pela estrada, observando os carros que vão chegando. Voltamos para
dentro, o celeiro enche e um rapaz de sobretudo encarnado vem tocar o sino e
chamar a atenção do grupo que o circunda. Seguimo-lo, quase às escuras, monte
acima, por outras escadinhas, outro edifício por trás, onde duas meninas nos
entregam efectivamente um saco-cama e um saco de água quente a cada um. Aceito
ambos e seguimos para fora desta segunda casa. Sentamo-nos na fila da frente de
cadeiras e nada se vislumbra, apenas uma cerca alta dentro da qual se vê o topo
de um carrinho de mão vermelho. A peça inicia com o queimar de incenso em dois
grandes vasos de barro laterais.
Estamos numa plateia ao ar livre, crepitam as
chamas, ouvem-se cigarras, estamos em plena Serra da Arrábida e o incenso é
fortemente especial e entra pelas narinas fundido com o cheiro a terra, a luz
ténue a iluminar os troncos de videira retorcidos em cima do carrinho de mão.
Ergue-se um homem sentado nos troncos, começa a
peça, é João Vieira, o idoso a quem a filha coloca num lar. Surge a
D.Felicidade, dona do lar, interpretada por uma actriz que se desdobra em
muitas outras. Mais tarde, aparece a filha Márcia e o filho Teo, personagens
planas que não se alteram, os dois principais desdobram-se em mil e desfilam
aos nossos olhos: D Felicidade, Mónica, as enfermeiras, o Salus, as velhinhas
do lar, o Holofernes, o Capelão, a voz do Cristo, a Voz da rádio salustiana, a
médica que decide a amputação da perna. O Cristo é um tronco, ou dois, em cruz…
tudo se conjuga no cenário, as roupas escuras, pretas, esfarrapadas, a lembrar
o que é velho e destruído.
As cenas dos banhos são focadas, há banho de cinza,
de terra, há o rio sempre evocado “ali em baixo” e muito bonito, na memória de
quem não poderá lá voltar.
E “são horas” diz D.Felicidade, são sempre horas, do
banho, do almoço, da visita, do banho de novo, são sempre horas e as horas
passam e não voltam atrás, daí a velhice que caminha no suave plano inclinado
que é o carrinho de mão. À medida que a noite avança, a escrita de João
torna-se mais caótica, o titubear da cabeça, a baba quando come, sinais da sua
visível deterioração que cresce ininterrupta e o carrinho de mão bascula, o palco
inclina-se, João vai caindo, a cabeça mais baixa para o seu destino que é a
terra. D.Felicidade/Mónica chama sempre “são horas” e são sempre horas e as horas
passam e João repete, com voz cada vez mais sumida: “Já vou”.
Estremeço, conhecer a obra a fundo permite-nos
vivê-la, se possível, mais ainda, mas também levar connosco expectativas que
poderiam gorar o prazer da visualização, será que o encenador vai seleccionar
esta cena? Será que vão repetir esta frase chave deste episódio?
E o André que nunca está, o terceiro filho
desterrado voluntariamente para parte incerta… Mónica, André - grita João. Já
vou. São horas.
O céu estrelado da Serra da Arrábida, o carrinho de
mão basculante guindado no ar, chia terrível e o plano quase já na vertical...
D.Felicidade agarra-se como pode, ainda não é a sua hora, João reconhece que é tempo, a Morte dá a sua pancadinha no ombro, o sinal de que são horas e
João responde “está bem”. Coloca dois pedaços de videira sobre os olhos numa
imagem clássica das moedas de Caronte. Dobra os braços sobre o peito, corpo
acabado, e o carrinho de mão na vertical, João desce, desce, resvalam os ramos
de videira com estrondo, resvala João.
Engulo as lágrimas que brotam sem parar, levanto-me
dentro do saco cama, cai-me o saco de água quente ao chão, ecoam as palmas pela
Serra da Arrábida.
São horas.
Está bem.
Palmela, Domingo 24 de Maio de 2015,
Ana Seiça

