quinta-feira, 18 de outubro de 2018

Corpo para beber até ao fim

"Quiero decir el desnudo. No quiero hacer un desnudo como un desnudo. Quiero no solamente decir, sino decir pie, decir mano, decir vientre,... una sola palabra basta cuando se habla de estas cosas". 

Pablo Picasso 

APROP



sábado, 6 de outubro de 2018

À Beleza

Não tens corpo, nem pátria, nem família,
Não te curvas ao jugo dos tiranos.
Não tens preço na terra dos humanos,
Nem o tempo te rói.
És a essência dos anos,
O que vem e o que foi.

És a carne dos deuses,
O sorriso das pedras,
E a candura do instinto.
És aquele alimento
De quem, farto de pão, anda faminto.

És a graça da vida em toda a parte,
Ou em arte,
Ou em simples verdade.
És o cravo vermelho,
Ou a moça no espelho,
Que depois de te ver se persuade.

És um verso perfeito
Que traz consigo a força do que diz.
És o jeito
Que tem, antes de mestre, o aprendiz.

És a beleza, enfim. És o teu nome.
Um milagre, uma luz, uma harmonia,
Uma linha sem traço...
Mas sem corpo, sem pátria e sem família,
Tudo repousa em paz no teu regaço.

Miguel Torga, in 'Odes'

quarta-feira, 5 de setembro de 2018

Coimbra é tua

Francisco Matias, "Vista de Coimbra - neblina matinal" (exposição 7-21 Abril de 2001)



Tinha 15/16 anos quando o conheci. Um sorriso que iluminava um semblante já de si doce, coroado por uma linda e farta cabeleira branca e um tom de voz de rádio.
As mangas azuis, de alpaca, para não manchar a camisa branca enquanto trabalhava. Um asseio, um aprumo, um cavalheirismo que conhecia também do meu pai e que me encantava.
Francisco Matias tinha uma deliciosa galeria de pintura no Girassolum, centro comercial centralíssimo na vida de Coimbra então.

Andava eu no Liceu Dona Maria, era jovem, romântica, escrevia uns poeminhas (que cheguei a publicar no jornal do Liceu) e desenhava (ou pensava eu que sim...).

Numa das aberturas inaugurais de uma exposição, num sábado de inverno chuvoso, a família almoçou na Vasco da Gama, restaurante que coroava o 3º e último piso do Centro Comercial e apresentou-se pontualmente às portas da Galeria, no 2º andar, às 15h, tal como dizia no convite.

Abriu-se um mundo de aguarelas maravilhosas e óleos com técnica de espátula, umas em tons outonais, outras azul pálido.
Percorri em silêncio a galeria duas vezes, enquanto diversas entidades a visitavam e cumprimentavam o pintor e os meus pais e a mana pequenina apreciavam os quadros e conversavam com o Senhor Matias amavelmente.

Estanquei diante de um quadro. Vista de Coimbra, neblina matinal e as lágrimas começaram a correr silenciosamente. Recordava-me de alguma forma o nevoeiro do meu Pedrógão, as ondas revoltas e, ao mesmo tempo (como pode um quadro encerrar tanta reminiscência) apertou-me no peito uma saudade do colo dos meus avós maternos e o ninho da infância, como se a Torre da Universidade albergasse em si mesma, na imagem do seu perfil recortado à luz dos primeiros tímidos raios da manhã de nevoeiro, não só o mar dos meus fins de semana, mas a sombra reconfortante do Mosteiro da Batalha.
Chorava calmamente e sorria diante do Belo. Veio o meu pai reconfortar-me e perguntou-me em vão por que chorava. O Senhor Matias sorriu e disse que aquele era o quadro de que mais gostava. Não pensara vendê-lo, mas se fosse para nossa casa, iria visitar-nos (e visitá-lo) com gosto. Com firmeza eu disse que era o quadro que mais gostava. O meu pai teve a bondade (e felizmente, podia fazê-lo) de pedir para embrulhar e levá-lo para casa.

Quando, pela primeira vez, saí de casa dos meus pais, aos 23 anos, a Neblina Matinal seguiu-me. Quando fui morar para a Fernandes Tomás, na Baixa de Coimbra, o quadro embrulhado com cuidado, foi pendurado na sala. Mais tarde, fui viver para os Olivais, onde permaneci 6 anos. Curiosamente, nunca cheguei a pendurá-lo. Nunca pensei que permanecesse naquela casa tanto tempo e o embrulho de papel pardo foi ficando adormecido no armário.

Mudei há dois meses para a Rua Natália Correia, regresso às origens, perto do ninho paterno. A casa maior, de paredes vastas brancas, recordou-me o quadro que merecia finalmente um lugar de destaque. É das primeiras coisas que se vê quando abrimos a porta.

Soube hoje de manhã que o Senhor Matias nos deixou. 5 de Setembro de 2018.
Afaguei a moldura do quadro e lembrei-me de uma visita tímida que lhe fiz um dia, quando saí das aulas da manhã do Liceu. Levava uma pasta azul comigo e um manto de vergonha em cima. Bati à porta, da Galeria, saudei um "Bom dia" baixinho, depois mais alto porque percebi que se afadigava na oficina atrás do biombo e lá apareceu a farta cabeleira, os óculos de massa, o sorriso: "Olha, a Anita! Que te traz por cá?".
A medo, perguntei se podia ler os meus poemas e apreciar os meus desenhos, aconselhando-me e dizendo-me francamente a sua opinião. Esperei num sufoco, em silêncio.
Elogiou as cores, criticou a forma como tinha desenhado as mãos das personagens (ainda hoje as mãos são para mim um tormento quando tento desenhar pares a dançar), cuidadosamente aconselhou-me a ter aulas de desenho, se assim o quisesse e afirmou sinceramente que precisaria de algum trabalho para atingir o que desejava.
Leu os poemas. Sorriu. Sobre a escrita disse apenas: nunca deixes de escrever.
A Galeria fechou anos mais tarde, o Senhor Matias reformou-se. O meu pai encontrava-o algumas vezes aqui na rua, mas nunca mais o vi, a não ser na luz do quadro sempre que o olho.

Corri a vasculhar, na despensa, uma enorme caixa onde tenho milhares de desenhos antigos, e encontrei a pasta azul com os desenhos. E noutra, finalmente, os meus poemas.
Francisco Matias escrevia também e houve um poema em particular que me deixou sempre encantada. Infelizmente ainda não consegui encontrá-lo no meio de tanta papelada desarrumada, mas terminava assim:

"Coimbra, és minha".

Dei por mim, há dias, a desenhar, de novo. Fui buscar os desenhos para os comparar aos da pasta, da Ana de há 16 anos atrás. "Ai estas mãos, ai tudo", lamentei-me... Mas sorri e decidi finalmente vir escrever esta linda memória antes de ir despedir-me deste Amigo.


“Não deixes que ninguém abandone o milagre de escrever.” (Vergílio Ferreira, Escrever, 2001: 195).


Tentativas minhas de desenhar (Agosto de 2018)

terça-feira, 20 de junho de 2017

Bem-haja

17, 18, 19, 20 de Junho de 2017 - incêndios em Pedrógão Grande

São pessoas... eram pessoas como eu, como nós, que passavam férias, que saboreavam o fim de semana, mergulhos com os filhotes na piscina, almoços de família, passeios de sábados ensolarados.
Desolação, choque, não despegar da TV o fim de semana inteiro, sentir o fumo e a escuridão que a força do vento traz até Coimbra. Chorar ao ler o texto da Tânia Ribas de Oliveira, uma mãe de uma família tão semelhante às famílias que perderam a vida: http://onossot2.com/2017/06/tempo-de-luto/.
Porque o que brota é o medo de imaginar e a certeza de que poderia ter sido qualquer um de nós.

Em Conta-Corrente 5, Vergílio Ferreira acertadamente, questiona: 

"Perante quem é que somos homens? É uma pergunta simples. Mas ela revoluciona toda a história da humanidade. Experimenta fazê-la. Experimenta pensá-la".

Quem me conhece sabe que não sou religiosa, mas acredito no Homem e no que ele é capaz. E estas Mulheres e estes Homens foram e são! capazes de muito, lutar contra as chamas, lutar pelas suas vidas e pelas dos que os rodeiam. 
Mesmo quem fugiu com as famílias, pensava ser o melhor para si e para os seus e nos derradeiros momentos pegou nos seus filhos ao colo, abraçou-os, até ao fim.

Sou de letras. Não é difícil desfiar palavras nem é difícil saber escolhê-las e coroar os textos com citações certeiras de outros autores. Estou habituada a mergulhar em livros, na humanidade, sim, mas através de escritos.

Por isso, não imagino aqueles cujas profissões se deparam diariamente com as chamas, no terreno, como os valorosos bombeiros que, enquanto dormimos, combatem os incêndios; ou os GNR que auxiliaram as pessoas a evacuarem as suas casas e as suas aldeias, deparando-se com velhos do Restelo que teimosamente não desejavam abandonar o lar; ou aqueles, 
os psicólogos e assistentes sociais, que vão ao encontro de rostos que precisam de ser acalmados, acarinhados, reconfortados, daqueles que ficaram mas que perderam bens e acima de tudo, entes queridos; ou aqueles que cuidam dos feridos e dos queimados, médicos, enfermeiros e veterinários, que lutam por dar vida e saúde, aconchego; e ainda muito menos imagino aqueles cujas profissões observam à lupa a Morte em si mesma, aqueles que trabalham incansáveis para identificar os que partiram, muitos irreconhecíveis, para possibilitar o luto digno das famílias.

Obrigada Obrigada Obrigada Obrigada Obrigada Obrigada Obrigada Obrigada Obrigada Obrigada Obrigada Obrigada Obrigada Obrigada Obrigada Obrigada Obrigada Obrigada Obrigada Obrigada Obrigada Obrigada Obrigada Obrigada Obrigada Obrigada Obrigada Obrigada Obrigada Obrigada Obrigada Obrigada Obrigada Obrigada Obrigada Obrigada Obrigada Obrigada Obrigada Obrigada Obrigada Obrigada Obrigada Obrigada Obrigada Obrigada Obrigada Obrigada Obrigada Obrigada Obrigada Obrigada Obrigada 

Dos meus lábios não saem mais do que agradecimentos por entre lágrimas por estes Homens e Mulheres que lutam, cada um no seu campo, para apoiar ao máximo cada homem, cada mulher, e cada bichinho que sobreviveu.

Vergílio Ferreira afirma "Só numa situação concreta sabemos o que realmente somos".

E o Homem é realmente enorme.

Bem-haja!

sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

O melhor lugar do mundo está em mim

De novo no melhor lugar do mundo, lá dentro, onde se cozia o pão e se faziam os pastéis de massa tenra, onde o avô batia nas pipas e assustava dizendo que estava um cabritinho preso lá dentro. De novo na salinha onde o saxofone estava pendurado e por onde o sol jorrava e se comiam torradas com manteiga que tinham definitivamente outro sabor. De novo, na cozinha, no forno onde saíram os primeiros bonecos biscoitos, de novo na escadaria, no quarto onde dormia, na cama dos avós onde a avó a empoleirava e a vestia e penteava com aquela palmeirinha no cimo da cabeça. De novo, em frente à porta medonha que conduzia ao sótão, onde nunca podia ir.
É tudo tão mais pequeno e estreito do que julgava... Mas como?
Baixou-se, de cócoras, e tornou a olhar em volta - então compreendeu - fui eu que cresci, não o melhor lugar do mundo que encolheu. Tinha 5 anos quando foi arrancada daquela nuvem de bem-estar e amor carinhoso que envolveu a infância, mas 26 anos depois, afinal, o melhor lugar do mundo está quase intacto.
São, de novo, as escadas onde caiu, rebolando, com a sorte de ser amparada pelos braços da mãe e da avó. É o relógio de pé, da sala grande, que metia medo e que agora, à luz do sol da tarde de dezembro, a faz sorrir das infantilidades dos cinco anos.
O jardim, no entanto, destoa, está triste e sombrio. A senhora amiga que vive na casa está mal, como esteve o avô há tantos anos atrás: a doença de que sofre fá-la esquecer-se de tudo, até de si mesma, como não deixar as flores, as heras, o baloiço caído, esquecidos também?
A aura da casa é a mesma, embora a lareira não esteja acesa, nem o odor de torradas encha o ar.
Mas há uma arca à espera, uma arca fechada: tem pano que se destinava a fazer e bordar lençóis para a "menina". A menina abre a arca, tem lençóis brancos e panos crus, tem um quadro de croché maravilhoso, feito por aquelas saudosas mãos, quando a menina nasceu. Tem a data, a hora, o peso, o tamanho da menina. A menina deixa as lágrimas soltarem-se.
No quarto que era dos pais estão as violas esquecidas e o bandolim que o avô segurara nos braços dizendo - Um dia será teu.
O bandolim no regaço, as memórias em catadupa, um incrível aperto de saudades.
A menina, a menina! Agora são duas, mas a menina mais nova observa tudo com a curiosidade e o amor ao desconhecido, buscando as memórias a partir das fotografias que conhece. Pudéssemos catapultá-la para esse mundo caloroso, à sombra protectora do Mosteiro, e enchêssemos de novo a casa, de lareira acesa, e os abraços e os sorrisos dos avós.
Mas eles estão lá, no melhor lugar do mundo, estão lá e estão aqui e estão sempre connosco, seja no legado que guardamos, nas tulipas rosa que enfeitam a jarra (só vinte anos depois damos conta de partilhar a predileção pela mesma flor...), seja na nossa memória diária, nos traços que deles herdámos.
Os avós não desaparecem, eles simplesmente tornam-se invisíveis, mas continuam a sorrir e a dar-nos a mão*

terça-feira, 14 de junho de 2016

Sem palavras.

S. Leonardo da Galafura, Régua, fotografia de LM

S. Leonardo da Galafura, Régua, fotografia de LM

S. Leonardo da Galafura, Régua, fotografia de LM - Poema de Miguel Torga


quinta-feira, 3 de março de 2016

A invenção de cada hora que nos vibra nos ossos


Ao Sam

 

"Toda a minha vida disponível a dediquei à literatura. (...) muita coisa sacrifiquei a isso. Mas não me queixo. Mesmo que eu seja realmente um escritor menor, como muitos me têm repetido para a hipótese de eu me esquecer. Não é o ser maior ou menor que está em causa: é só o ser eu. E é em literatura que sou", disse Vergílio Ferreira em Conta-Corrente II, 1977.

É isto. Não importa ser-se maior ou menor, importa ser-se! e eu não sei ser ou fazer outra coisa que não estudar e investigar literatura, filosofia, dar aulas de dança e dançar. :)

Évora, 2 de Fevereiro de 2016, nas Comemorações do Centenário de Vergílio Ferreira