Dia de Camões, dia da nossa língua, da minha língua vejo o mar, esta frase de Vergílio Ferreira, que nos faz percorrer a língua dentro da boca e depois vir saborear os lábios com a pontinha, como se acabássemos de mergulhar no mar e e trouxéssemos no corpo esse gosto maravilhoso do sal e a frescura arrepiante de sentir cada músculo acordado no mundo. Como um choque eléctrico que te percorre as fibras e te faz querer gritar "Eu", estás ali, és imortal por instantes, na plenitude assombrosa do teu eu-corpo nas ondas do mar, na areia molhada.
Pele de sol, Língua de sal, Olhos de mar - leu há pouco nesses chavões do Instagram. Mas... olha... reconhece-se.
Há dois verões que esse sabor parece quase longínquo, mas basta fechar os olhos para o sentir. Falta pouco.
Camões falava demasiado no amor. Tal como este blogue. Ah, mon chère, méprise, mon chère, méprise, de que serve? De que serve falar dele, de que serve o amor a não ser para o sentir? Bah.
O Amor está, é, sente-se, é poderosíssimo, e esse, que se sente e é, é o mais puro, o mais límpido, mas o ideal para ela é ser a transcendência emocional vivida na materialização mais humana que temos, seja pelo olhar, pelos lábios, pelo mais primário suor que se partilha num abraço sufocado.
Não vê um sem o outro. É uma cobra a mudar de pele. Não se reconhece, ainda. Falta pouco, deixa o tempo passar. A transcendência trocou-lhe as voltas. A inquietude do perguntar fervilha-lhe nas entranhas. Não!! acalma essa ansiedade, tiveste aquilo que sempre quiseste, que lias em Vergílio Ferreira e que pedias para ti, que tanto estudaste e escarrapachaste na tua tese de doutoramento, não foi? o assombro encontro, a aparição de ti a ti mesma... o espanto do eu, a dorida consciência de uma existência brutal que pode terminar num segundo, o divino em ti... não era o que querias ? pois agora aguenta.
olhos que não vêem, coração que não sente, o provérbio mais mentiroso e inadequado que alguém alguma vez se lembrou de escrevinhar.
Postou este poema em 2012... pareceu-lhe bem recordá-lo hoje de novo.
E é isto. Bom feriado.