segunda-feira, 19 de julho de 2021

Ganhei o dia

Acordo com o nascer do sol para mais um dia.

Terei escolhido mal a vocação, deveria ter seguido a área da saúde desde sempre? Mas a base humanista serve-me tanto.

Morrinhava quando saí de casa, os cafés por abrir, a madrugada a deixar lugar à manhã.

O silêncio da clínica, as persianas ainda cerradas, o vazio que se encherá bem depressinha à medida que os ponteiros do relógio avançam.

É este o Presente, o Aqui e o Agora, mas as rotinas vão-se estabelecendo e conhece-se aos poucos o futuro próximo.

Às 2ªs, 4ªs e 6ªs vem a D. Celeste, sempre aprumada, o cabelo cinza bem arranjado, saúda-me sempre, "A Mna Ana, como está"?

A D. Alzira, pequenina e trigueira, quando me vê diz numa doce voz "Que Deus nosso Senhor lhe dê saúde". "A ambas", respondo eu, "a ambas, que eu não a quero ver cá muito tempo" e ela ri-se como um passarinho, como fazia a minha avó, mãe do meu pai.

O Sr. Eduardo vem ao fim da manhã, é um homenzarrão novo, com ar de motoqueiro e um vozeirão que se ouve na clínica inteira. Como faz tratamentos mais demorados, quando volto do almoço exclamo sorridente "Ainda aqui"? "É que eu gosto tanto disto", diz-me ele a rir. 

Às 3ªs e 5ªs, a delícia que é ver chegar o Sr. José, sempre sem pressa, mas sempre a querer fugir. Quer ir para a Figueira, onde tem uma casinha, quer ir para alto mar, pescar. O Sr José tem a pele tisnada pelo sol, o sorriso franco. Vou chamá-lo à entrada, medir-lhe a temperatura, "O Sr José quer vir comigo?" Responde sempre "Então não vou? Divorciava-me já!" e faz-me rir. Já me contou embevecido que foi doceiro toda a vida, fazia o chocolate, o ponto de caramelo, os bombons, as coberturas, agora não quer cozinhar nem por nada, só se os amigos lhe pedirem muito. "E conheci a minha mulher na doçaria", afirma ele, sorrindo feliz. Fala da vida, da filha, das coisas simples, do mar e do sol e há todo um oceano naquelas palavras.

Há outro senhor, do qual ainda não decorei o nome, cujos olhos são azuis cristalinos. Sempre que termino o tratamento, exclamo "Está novo!" e ouço-o a rir com gosto, "Estou estou!". Fala da mulher com ar triste. Ouvi-o partilhar com um terapeuta "Passei 50 anos da minha vida com ela e agora que ela está assim é que a vou deixar? Claro que não! Não me conhece, mas conheço-a eu". Não conheço a história, mas subentende-se. Disfarcei como pude, contudo as lágrimas apareceram nos beirais e salvou-me, neste caso único, a porcaria da máscara que já não suporto, para disfarçar o meu semblante. 

A Humanidade está aqui e quanto amor e bondade há no Homem!

São tantos os que desfilam naquele corredor, que desfilam as suas dores, os seus lamentos quando pergunto "Como passou?", mas depois saem sorridentes, mais leves talvez, imagino eu, quero eu acreditar que sim, nem que seja com o espírito reconfortado pelo abraço de um olhar meigo e de um "até amanhã" com a perspectiva e a fé nas melhoras. 

Depois, há a minha homónima. Ajudo-a a virar-se na marquesa, abraçamo-nos, ajudo-a a revestir-se do seu luto, depois dos tratamentos, calço-lhe os sapatos e chego-lhe a bengala. Encostou a testa à minha e confessou-me que adorava cantar. "Agora a voz já não me sai como saía", diz dolorida, "mas ainda canto e sobretudo toco viola. Fui professora de criançada toda a vida, oh como é bom!". Sorrio com o olhar, sorrio com o corpo todo, porque a máscara tira-nos a expressão partilhada das feições, e peço-lhe que não deixe de cantar, pelo menos para si mesma, se é algo que a conforta.

O conforto, penso, para muitas daquelas pessoas é o parco tempo que ali passam. Para a maioria talvez seja até dos poucos momentos do dia em que conversam com alguém. 

Como quando fiz voluntariado com as crianças do Hospital Pediátrico e da Acreditar, pergunto-me quem ajuda mais quem? Se sou eu (nós) que procuramos amenizar aquelas dores, físicas e de solidão, ou se são eles (os utentes), que me (nos) dão momentos de pura alegria e iluminação humana, seja num sorriso, numa mão que pousa no nosso braço, quando me apertam a mão reconhecidos por uma ninharia que lhes fiz. Sei bem que não ligo apenas as máquinas, nem os cronómetros que ditam o tempo de tratamento, sei que estar lá influencia, com o toque, o tom de voz, um "até já, já venho ter consigo", tudo detalhes que não se esquecem, mas ainda assim, chego ao final do dia com a sensação do tão pouco que tenho para oferecer e da quantidade de bençãos e amor e carinho que recebo. 

Hoje morrinhava, "Está fresquinho", ouvi dezenas de vezes pela manhã, mas ali há calor, calor humano. "A menina começou a trabalhar há pouco tempo aqui? Nunca me tinha tratado... Pois Deus lhe dê sorte que é tão novinha!". "Olhe que não, menina", disse eu que as chamo meninas e derretem-se todas, "olhe que não". "Então, não é? Não tem mais de 23 aninhos, me parece".

Uma sonora gargalhada ouviu-se em toda a clínica, por certo. E eu, eu ganhei o dia.

quarta-feira, 30 de junho de 2021

Parece um sonho

Parece um sonho


Parece um sonho que ela tenha morrido!
diziam todos... Sua viva imagem,
tinha carne!... E ouvia-se, na aragem,
passar o frêmito do seu vestido...

E era como se ela houvesse partido
e logo fosse regressar de viagem...
- até que em nosso coração dorido
a Dor cravava o seu punhal selvagem!

Mas tua imagem, nosso amor, é agora
menos dos olhos, mais do coração.
Nossa saudade te sorri: não chora...

Mais perto estás de Deus, como um anjo querido.
E ao relembrar-te a gente diz, então:
Parece um sonho que ela tenha vivido!

quinta-feira, 24 de junho de 2021

Ao menos tu sê ave

Ergue-te de mim,
substância pura do meu canto.
Luz terrestre, fragrância.
Ergue-te, jasmim.

Ergue-te e aquece
a cal e a pedra,
as mãos e a alma.
Inunda, reina, amanhece.

Ao menos tu sê ave,
Primavera excessiva.
Ergue-te de mim:
canta, delira, arde.


Coração do Dia, Eugénio de Andrade


quinta-feira, 10 de junho de 2021

E é isto. Bom feriado.

Dia de Camões, dia da nossa língua, da minha língua vejo o mar, esta frase de Vergílio Ferreira, que nos faz percorrer a língua dentro da boca e depois vir saborear os lábios com a pontinha, como se acabássemos de mergulhar no mar e e trouxéssemos no corpo esse gosto maravilhoso do sal e a frescura arrepiante de sentir cada músculo acordado no mundo. Como um choque eléctrico que te percorre as fibras e te faz querer gritar "Eu", estás ali, és imortal por instantes, na plenitude assombrosa do teu eu-corpo nas ondas do mar, na areia molhada.

Pele de sol, Língua de sal, Olhos de mar - leu há pouco nesses chavões do Instagram. Mas... olha... reconhece-se.

Há dois verões que esse sabor parece quase longínquo, mas basta fechar os olhos para o sentir. Falta pouco.

Camões falava demasiado no amor. Tal como este blogue. Ah, mon chère, méprise, mon chère, méprise, de que serve? De que serve falar dele, de que serve o amor a não ser para o sentir? Bah. 

O Amor está, é, sente-se, é poderosíssimo,  e esse, que se sente e é, é o mais puro, o mais límpido, mas o ideal para ela é ser a transcendência emocional vivida na materialização mais humana que temos, seja pelo olhar, pelos lábios, pelo mais primário suor que se partilha num abraço sufocado.

Não vê um sem o outro. É uma cobra a mudar de pele. Não se reconhece, ainda. Falta pouco, deixa o tempo passar. A transcendência trocou-lhe as voltas. A inquietude do perguntar fervilha-lhe nas entranhas. Não!! acalma essa ansiedade, tiveste aquilo que sempre quiseste, que lias em Vergílio Ferreira e que pedias para ti, que tanto estudaste e escarrapachaste na tua tese de doutoramento, não foi? o assombro encontro, a aparição de ti a ti mesma... o espanto do eu, a dorida consciência de uma existência brutal que pode terminar num segundo, o divino em ti... não era o que querias ? pois agora aguenta.

olhos que não vêem, coração que não sente, o provérbio mais mentiroso e inadequado que alguém alguma vez se lembrou de escrevinhar.

Postou este poema em 2012... pareceu-lhe bem recordá-lo hoje de novo.

E é isto. Bom feriado.


segunda-feira, 31 de maio de 2021

Multiply it by infinity, and take it to the depth of forever, and you will still have barely a glimpse of what I'm talking about.


Meet Joe Black

Foi preciso chegar aos quase 36 anos e meio para ver este filme do início ao fim, com atenção. 

Não sei ainda se gostei, não sei se achei ridículos ou se adorei os olhares, pois alguns me pareceram exageradamente ingénuos, amadores. As personagens-tipo muito simplistas e as principais profundamente complexas, alguma linguagem corporal hesitante e demasiado teatral para um primeiro plano de câmara. 

E no entanto, quanto de nós, na vida real, fica efectivamente por dizer verbalmente e é o nosso corpo que o balbucia e deixa entrever os nossos pensamentos? um balancear de cabeça, um olhar pleno de dúvidas, um abraço apertado e, sobretudo, se falamos no tema maior do filme, o amor.

Contudo, a mensagem... a voz do Anthony Hopkings, um dinossauro a fazer do empresário William Parrish, que toma consciência da sua morte próxima e que observa a sua vida e se apercebe, feliz, ter dado tudo de si em cada momento e ter sentido as emoções em cada momento. 

E é esse o desejo que ele gostava de legar à filha mais nova, que ela sinta paixão, emoção na vida.


  • Joe Black I don't care Bill. I love her.

    William Parrish How perfect for you - to take whatever you want because it pleases you. That's not love.

    Joe Black Then what is it?

    William Parrish Some aimless infatuation which, for the moment, you feel like indulging - it's missing everything that matters.

    Joe Black Which is what?

    William Parrish Trust, responsibility, taking the weight for your choices and feelings, and spending the rest of your life living up to them. And above all, not hurting the object of your love.

    Joe Black So that's what love is according to William Parrish?

    William Parrish Multiply it by infinity, and take it to the depth of forever, and you will still have barely a glimpse of what I'm talking about.

    Joe Black Those were my words.

    William Parrish They're mine now.

 

terça-feira, 18 de maio de 2021

Carthago non delenda est

Que a couraça da raiva se dissipe, a garganta suavize e a tensão diminua. 

Só faz ranger os dentes de noite o que fica por dizer e o cuspo das palavras forma uma bola que se atravessa e corrompe a doçura do amor que jorra. A lágrima escorre. Como dizia o outro "não sei para onde vou, só sei que não vou por aí". 

Em boa verdade vos digo que pelo Amor é que vamos e nunca cegos pela raiva. 

"Não existe família perfeita. Não temos pais perfeitos ,não somos perfeitos, não nos casamos com uma pessoa perfeita nem temos filhos perfeitos. Temos queixas uns dos outros. Decepcionamos uns aos outros. Por isso, não há casamento saudável nem família saudável sem o exercício do perdão. O perdão é vital para nossa saúde emocional e sobrevivência espiritual. Sem perdão a família se torna uma arena de conflitos e um reduto de mágoas. Sem perdão a família adoece. O perdão é a assepsia da alma, a faxina da mente e a alforria do coração. Quem não perdoa não tem paz na alma nem comunhão com Deus. A mágoa é um veneno que intoxica e mata. Guardar mágoa no coração é um gesto autodestrutivo. É autofagia. Quem não perdoa adoece física , emocional e espiritualmente. É por isso que a família precisa ser lugar de vida e não de morte; território de cura e não de adoecimento; palco de perdão e não de culpa. O perdão traz alegria onde a mágoa produziu tristeza; cura, onde a mágoa causou doença".

Papa Francisco