terça-feira, 5 de abril de 2022

enquanto o meu corpo tiver energeia

Comentei com um dos meus superiores que, com a acumulação de trabalho, por acaso não tenho podido ir assistir à missa dos jesuítas de que até gosto e que descobri em novembro ou dezembro (já não me recordo), aos domingos à tardinha, com adolescentes e crianças a cantar, acompanhados à viola, numa igreja simples, com uma única imagem, um Cristo de madeira até tosco mas simpatiquíssimo, que parece que nem tem a cruz, ou seja, está de braços abertos para todos os que entram (ou é essa a imagem que eu quis ter - nós vemos o que queremos ver e enxergamos a realidade com o que o nosso interior nos dita).

O comentário telefónico foi rápido, intenso, febril (e esta última frase foi tão Cesário Verde!), "Não pode ser, não pode afastar-se da fonte!!!!".

Qual fonte, pá?
Qual fonte?
Febril fiquei eu, com as palavras como bombas a querer rebentar-me nos lábios, mas apenas sorri e docemente respondi que não me sinto nada afastada. Docemente... a ferver por dentro. 

Tudo o que é visto como uma obrigação rapidamente perde sabor, perde sentir, e aí sim, a pessoa desconecta-se mas é de si mesma. Procuremos a nossa verdade, a de cada um, e não será uma obrigação, um ritual imposto por outrem, mas sim uma vontade interna, um movimento ascendente ou descendente ou circular ou o que se quiser. geográfica e simbolicamente, por que olhamos para cima, para um céu, um Olimpo, um paraíso, do qual desconhecemos a morada, se a conexão conosco está na terra e no nosso enraízamento? Trago sempre Vergílio Ferreira para estas reflexões tolas e quase esquizotípicas, porque realmente ele dizia umas coisas porreiras (mas às vezes temo usar o nome dele em paupérrimos ensaios reflexivos que nada mais são do que os caprichos ruminantes do meu cérebro) mas, ainda por cima, depois, como as pessoas mais idosas, repito-me imenso: "Para que percorres inutilmente o céu à procura da tua estrela? Põe-na lá". Ora...
A missa é, aos meus olhos, sim, a celebração colectiva da palavra escrita, admitida e consentida. Na verdade, nem é local onde me sinta muito "eu", gosto da música sim, gosto do discurso (na gíria correcta, a homilia, acho) sobretudo quando fazem pontes filosóficas e literárias (ou não fossem jesuítas!), mas não me agrada o "papaguear" daqueles textos já feitos (e desculpem católicos que me lêem mais susceptíveis), que se decoram em criança e que se repetem muitas vezes sem perceber o conteúdo, o significado, o sentir (felizmente, nunca ninguém me obrigou a isso). 
Isto não é nem pode, para mim, ser a fonte.
Até porque... a fonte sou eu. Dormi com este pensamento, mas tinha de o escrever hoje, a fonte tinha de jorrar. A fonte é cada um de nós em si mesmo. A minha sou eu.
E sinto-me, sinceramente, muito mais no caminho, muito mais conectada com Ele (seja este Ele talvez uma Ela, um Isso, um Todo, o que seja!).
Vem uma amiga e diz "Já alinhaste os chakras!", vem outro e diz, "manifestaste ao Universo e o Universo concedeu". 
Que importa? 
De novo, nós vemos a realidade com aquilo que já está no interior dos nossos corações e alma. 
Se for com olhos de Amor, tudo é bem-vindo, então assim seja, alinhei os chakras, manifestei ao Universo, o Anjo que é a minha avó ouviu-me, se formos para as igrejas dos 7ºs e dos quinquagésimos dias, vi Jesus e a luz. whatever
Enfim, tudo é maravilhosamente válido se vier do Belo, não só do Belo exterior, que também conta, mas do Belo num todo, daquela teoria grega linda (não fosse eu também classicista e humanista de base), a kalokagathía (e que bom saborear de novo esta palavra magnífica καλοκαγαθία).

Tudo isto para definitivamente sentir que, uma vez conectada com a minha própria fonte, que é o meu eu e o meu propósito de vida, fiquei mais próxima da minha própria centelha divina.
Não é por ir ou não ir àquela celebração em específico que "me afasto da fonte", muito pelo contrário, ali não há fonte nenhuma, há talvez cântaros humanos que se juntam e partilham alguma água, ainda assim, é uma imagem dúbia que me ocorre enquanto as palavras brotam, mas que não me é inteiramente sincera, pois não a sinto (e "tantas vezes o cântaro vai à fonte...")...

A comunicação entre o meu eu mais humano e o meu eu mais divino é donde a fonte brota e a fonte sou eu. Poder ensinar, poder ajudar, é essa a minha missão entranhada e que finalmente se consolida, é esse o meu propósito enquanto o meu corpo tiver energeia nesta terra.
Enquanto não sou psicóloga e psicoterapeuta corporal, ensino dança e movimento e a minha língua materna a seres que precisam muito de apoio, mimo, amor e acolhimento. 
Não importa as diferenças, são pais, mães, filhos, irmãos, que se viram à deriva numa terra estranha e que, atarantados, buscam uma mão, um braço, um suporte... quem me dera poder fazer mais. 
Jesus fazia o quê, na sua humildade? o Jesus humano, aquele de quem gosto de ouvir as narrativas, acho que não papagueava as frases feitas do livro quando um moribundo procurava tocar-lhe... antes estendia calor humano, um sorriso e um olhar amigo, com franqueza, com verdade, mesmo quando até nem podia mais ajudar! 
Que andamos nós aqui a fazer, então, se não é para tornar a vida de cada um e a de quem nos rodeia em algo um pouco melhor, um pouco mais belo? (vá, tirando os psicopatas e os narcisistas que não compreendem a entrada do dicionário que diz "empatia"...).
Olhares e sorrisos agradecidos, são estas as ofertas que eu recebo dia-a-dia, por seres humanos carinhosos e afáveis, e pelas quais tenho a maior gratidão, e por isso me sentir mais alinhada, por estar a fazer algo bem. Olhares e sorrisos agradecidos de quem já comunica algo e me sente, por isso, mais perto, olhares esses mais toldados e embaciados agora pelo jejum próprio da sua época.

E depois de, uma vez mais, misturar de tudo um pouco num texto que apenas para mim fará sentido (mas não tem mal), vindo de um lugar de verdade, de acolhimento, cada dia mais sinto que o caminho é, sem dúvida, o da abertura, o do respeito, o do AMOR, e nunca o do fechamento, nunca o do me diminuir para caber no mundo de ninguém, mas abarcar, abraçar, expandir, mais do que ontem e menos do que amanhã.
Essa é a fonte, esse o jorrar de vida, que brota, sempre!


P.S.: Desejo um Feliz Ramadão a todos os meus alunos afegãos e egípcios.





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