segunda-feira, 8 de outubro de 2012

Trago na palma da mão a luz diurna: e a ferida no flanco.
O meu deus, o meu demónio, respira fundo e alto. 
Ela, a minha múltipla companheira,
é uma coluna silenciosa e ardente. 
A luz sela esta aliança entre o sopro e a matéria 
e uma voz se eleva nos barcos do silêncio.

António Ramos Rosa, "Três lições materiais", Antologia poética (1989)

quarta-feira, 26 de setembro de 2012


Para um Amigo Tenho Sempre 

Para um amigo tenho sempre um relógio
esquecido em qualquer fundo de algibeira.
Mas esse relógio não marca o tempo inútil.
São restos de tabaco e de ternura rápida.
É um arco-íris de sombra, quente e trémulo.
É um copo de vinho com o meu sangue e o sol.

António Ramos Rosa, in "Viagem Através de uma Nebulosa"


domingo, 23 de setembro de 2012

És a carne dos deuses / O sorriso das pedras

Castelo de Aguiar (22 de Setembro 2012)
  
"És a essência dos anos, 
 O que vem e o que foi.
 És a carne dos deuses,
 O sorriso das pedras, 
 E a candura do instinto
 (...)
 Tudo repousa em paz no teu regaço."

 À beleza, Odes 

   Devo à paisagem as poucas alegrias que tive no mundo. Os homens só me deram tristezas. Ou eu nunca os entendi, ou eles nunca me entenderam. Até os mais próximos, os mais amigos, me cravaram na hora própria um espinho envenenado no coração. 
   A terra, com os seus vestidos e as suas pregas, essa foi sempre generosa. É claro que nunca um panorama me interessou como gargarejo. É mesmo um favor que peço ao destino: que me poupe à degradação das habituais paneladas de prosa, a descrever de cor caminhos e florestas. As dobras, e as cores do chão onde firmo os pés, foram sempre no meu espírito coisas sagradas e íntimas como o amor. Falar duma encosta coberta de neve sem ter a alma branca também, retratar uma folha sem tremer como ela, olhar um abismo sem fundura nos olhos, é para mim o mesmo que gostar sem língua, ou cantar sem voz. Vivo a natureza integrado nela. De tal modo, que chego a sentir-me, em certas ocasiões, pedra, orvalho, flor ou nevoeiro. 
   Nenhum outro espectáculo me dá semelhante plenitude e cria no meu espírito um sentido tão acabado do perfeito e do eterno. Bem sei que há gente que encontra o mesmo universo no jogo dum músculo ou na linha dum perfil. Lá está o exemplo de Miguel Ângelo a demonstrá-lo. Mas eu, não.
   Eu declaro aqui a estas fundas e agrestes rugas de Portugal que nunca vi nada mais puro, mais gracioso, mais belo, do que um tufo de relva que fui encontrar um dia no alto das penedias da Calcedónia, no Gerez. Roma, Paris, Florença, Beethoven, Cervantes, Shakespeare... 
   Palavra, que não troco por tudo isso o rasgão mais humilde da tua estamenha, Mãe!

   Miguel Torga, in "Diário (1942)"


quinta-feira, 20 de setembro de 2012

corpo que pode dizer "eu"

Vila Pouca de Aguiar
 
O “eu” de cada homem é inatingível, enquanto esse “eu” é um actuar e ser de dentro para fora. Eis porque até mesmo a exterioridade em que dois homens se encontram é vivida em cada um em radical solidão. A causa que nos une é o sol que nos aquece ou a pedra que ambos reconhecemos entre nós. Mas o calor do sol e a resistência da pedra é cada “eu” que a sente e ninguém mais por ele. No acto amoroso, um “tu” está sempre distante ainda que tudo o que ele é esteja ao alcance da nossa mão. Cada “eu” é o seu corpo, porque o corpo não é bem um “instrumento” mas ainda um modo subjectivo de o sermos, um modo ainda de sermos nós. (...) 
E, todavia, como um “eu”, nós somos totalmente o nosso corpo e o que através dele ou com ele somos ou manifestamos, e no entanto somos ainda outra coisa que está atrás disso tudo, embora não esteja lá. O “tu” que se atinge no acto amoroso é o corpo que se atinge e as palavras que ele diz e o prazer que manifesta; e no entanto é ainda outra coisa atrás disso e que é a pessoa que é tudo isso, a sua proprietária, a indizível realidade que pode dizer “eu sinto, eu amo, este corpo é meu”. (...)
Esse alguém está lá e no entanto não está. E tanto não está que quando o corpo morrer nada desse alguém permanece. (...)
Não pretende assim bem realizar o ingénuo mito platónico (...) da união das duas metades, o mito da complementaridade em que os moderados se fixam, mas sim fazer que de dois todos nasça um todo apenas e que esse todo, absurdamente, seja vivido pelo nosso “eu” através do “tu” que enfrentamos.

Vergílio Ferreira, “XII Erotismo”, in Invocação ao meu corpo, Bertrand, 1994, pp.175-177

domingo, 9 de setembro de 2012

E hei-de acabar assim, a dizer-lhe que não.

Coimbra, 10 de Dezembro de 1958 - há vinte e cinco anos a lidar profissionalmente com a morte, e cada vez me sinto menos capaz de a compreender e aceitar. A meio caminho entre o puro campónio e o puro cerebral, perante ela nem consigo ter a paz do rústico, que olha o trânsito de cada existência como um ciclo da natureza, nem a dor do intelectual, que o vê em função de categorias mentais. Mal a descortino à cabeceira dum doente, reajo sempre da mesma maneira instintiva e sobressaltada. E, sem querer saber das suas razões, passo a guerreá-la encarniçadamente com as armas de que disponho. Esgoto o arsenal da farmacopeia e da esperança. Metido quase fisiologicamente na pele do enfermo, e servido pela terapêutica que a ciência me fornece, luto até não poder mais. E quando é ela que triunfa, apenas pragmaticamente aceito a derrota. Vencido mas não convencido, retempero os conhecimentos e a coragem, e preparo-me para o combate seguinte. E hei-de acabar assim, a dizer-lhe que não.


Coimbra, 20 de Janeiro de 1961 - A pergunta é sempre a mesma, mas o tamanho da resposta varia consoante a disponibilidade e a pachorra.
-A medicina dá muitos escritores! Por que será?
Pacientemente, dobro a receita, tiro os óculos, levanto-me e começo o sermão, que hoje me saiu um pouco sincopado:
- Não é ela que os dá. Limita-se, simplesmente, a preservar esse dom aos que nasceram com ele, o que já não é pouco. Ao invés doutras profissões, que estrangulam no indivíduo o espírito de aceitação e compreensão do semelhante, esta faz o contrário. O médico, como tal, nem pode fechar as portas da alma, nem apagar a luz do entendimento. É todo o humano que o solicita a todas as horas: o que sofre, o que simula, o que teme e o que desvaria. E só a graça de uma certa dimensão afectiva e mental permite corresponder eficientemente a tantos e tão diversos apelos. Ora, essa dimensão está implícita na condição do artista, o mais receptivo e perceptivo dos mortais. Por isso, quando o acaso sobrepõe a uma vocação criadora uma condenação clínica, não há dramas sangrentos. A caneta que escreve e a que prescreve revezam-se harmoniosamente na mesma mão.

Miguel Torga, Diário, excerto in A caneta que escreve e a que prescreve , Doença e Medicina na Literatura Portuguesa, Antologia (org. de C. Rocha), Verbo, babel, Lisboa 2011 pp.200-201

Ter a tua alegre inconsciência / E a consciência disso

Esta espécie de loucura
Que é pouco chamar talento,
E que brilha em mim na escura
Confusão do pensamento,

Não me traz felicidade,
Porque, enfim, sempre haverá
Sol ou sombra na cidade,
Mas em mim não sei o que há.

                  *

Há doenças piores que as doenças,
Há dores que não doem, nem na alma,
Mas que são dolorosas mais que as outras.
Há angústias sonhadas mais reais
Que as que a vida nos traz, há sensações
Sentidas só com o imaginá-las
Que são mais nossas do que a nossa vida.
Há tanta cousa que, sem existir,
Existe, existe demoradamente,
E demoradamente é nossa e nós...
Por sobre o verdor turvo do amplo rio
Os circunflexos brancos das gaivotas...
Por sobre a alma o adejar inútil
Do que não foi, nem pôde ser, e é tudo.

Dá-me mais vinho, porque a vida é nada.

Fernando Pessoa, Poesia 1918-1930

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

"Um ser amado que seduz. Escrevi-lhe. Impossível que não me responda ao que eu disse a mim mesma em seu nome.
Os homens devem-nos o que imaginamos que nos darão. Remeter-lhes esta dívida.
Aceitar que sejam diferentes da nossa imaginação, é imitar abnegação de Deus.
Também eu sou diferente daquilo que me imagino ser.
 A sabedoria, é o perdão."

Simone Weil, A gravidade e a graça, Antropos, Relógio d'Água, Lisboa 2004, p.15.