terça-feira, 3 de setembro de 2019

o sangue que se esvai sem som



Nada tão silencioso como o tempo
no interior do corpo. Porque ele passa
com um rumor nas pedras que nos cobrem,
e pelo sonoro desalinho de algumas árvores
que são os nossos cabelos imaginários.
Até na íris dos olhos o tempo
faz estalar faíscas de luz breve.
Só no interior sem nome do nosso corpo
ou esfera húmida de algum astro
ignoto, numa órbita apartada,
o tempo caladamente persegue
o sangue que se esvai sem som.
Entre o princípio e o fim vem corroer
as vísceras, que ocultamos como a Terra.
Trilam os lábios nossos, à semelhança
das musicais manhãs dos pássaros.
Mesmo os ouvidos cantam até à noite
ouvindo o amor de cada dia.
A pele escorre pelo corpo, com o seu correr
de água, e as lágrimas da angústia
são estridentes quando buscam o eco.
Mas nós sentimos dentro do coração que somos
filhos dilectos do tempo e que, se hoje amamos,
foi depois de termos amado ontem.
O tempo é silencioso e enigmático
imerso no denso calor do ventre.
Guardado no silêncio mais espesso,
o tempo faz e desfaz a vida.
Fiama Hasse Pais Brandão
in Cenas Vivas

terça-feira, 6 de agosto de 2019

Mulheres à beira-mar

Confundido os seus cabelos com os cabelos 
do vento, têm o corpo feliz de ser tão seu 
e tão denso em plena liberdade.

Lançam os braços pela praia fora e a brancura
dos seus pulsos penetra nas espumas.

Passam aves de asas agudas e a curva dos seus
olhos prolonga o interminável rastro no céu
branco.

Com a boca colada ao horizonte aspiram longamente a virgindade de um mundo que nasceu.

O extremo dos seus dedos toca o cimo de
delícia e vertigem onde o ar acaba e começa.

E aos seus ombros cola-se uma alga, feliz de
ser tão verde.
 

Sophia, Coral

Praia do Pedrógão, Agosto 2019

segunda-feira, 17 de junho de 2019

O Corpo Os Corpos

O teu corpo         O meu corpo       E em vez dos corpos 
que somados seriam nossos corpos 
implantam-se no espaço novos corpos 
ora mais ora menos que dois corpos 

Que escorpião de súbito estes corpos 
quando um espelho reflecte os nossos corpos 
e num só corpo feitos os dois corpos 
ao mesmo tempo somos quatro corpos 

Não indagues agora se o meu corpo 
se contenta só corpo no teu corpo 
ou se busca atingir todos os corpos 

que no fundo residem num só corpo 
Mas indaga sem pausa além do corpo 
o finito infinito destes corpos 

David Mourão-Ferreira, in “Obra Poética” 

domingo, 2 de junho de 2019

Foram Breves e Medonhas as Noites de Amor




Foram Breves e Medonhas as Noites de Amor

foram breves e medonhas as noites de amor 
e regressar do âmago delas esfiapava-lhe o corpo 
habitado ainda por flutuantes mãos 

estava nu 
sem água e sem luz que lhe mostrasse como era 
ou como poderia construir a perfeição 

os dias foram-se sumindo cor de chumbo 
na procura incessante doutra amizade 
que lhe prolongasse a vida 

e uma vez acordou 
caminhou lentamente por cima da idade 
tão longe quanto pôde 
onde era possível inventar outra infância 
que não lhe ferisse o coração 

Al Berto, “O Medo”

quarta-feira, 29 de maio de 2019

O amor é um atentado anarquista

"Se fui? Claro que fui. A minha estreia na ala dos criados. Onde acabam as armaduras e as cortinas de veludo vermelho. Antes do quarto de passar a roupa e as caldeiras. Na fronteira. Ele o meu feitor e eu a sua prisioneira. Na sua cabana pequena, em ordem e sem janelas. Apenas uma cortina lá em cima, na porta, alta. (...) Esse fedor espesso, eterno e misterioso que todos os quartos de serviço têm. Os seus dedos atrapalhados nos botões das calças de montar. "Desaperta tu", disse-me ele. Não tenho a certeza se ele me disse "tu". Eu tinha imaginado tudo de outra maneira. Eu imaginava as mãos de um artesão. Um joalheiro ou um ourives. Um relógio. Dedos suíços abrindo os botões. Soltando os laços. Desfazendo os cordões. Os botões travavam como se fossem pedras. Ele puxava... "E vira-te assim de lado". (...) Conversa porca. Falava entre dentes. Uma vulgaridade inefável. (...) Imaginei tudo de maneira  diferente. (...) Tive vontade de fugir. E mais vontade ainda de ficar e que ele fizesse tudo outra vez. (...) Vontade que me cobrisse como uma égua. E uma vontade idiota de lhe escrever um poema. Palavras que me apareciam como nuvens. Ele com a sua imensa falta de nível "Uma rapidinha antes que os senhoritos nos encontrem ", "Fode, fode". E eu, como uma idiota, escrevendo em tudo o que é papel a palavra "foda" em letra gótica. Foda, fode, foda: o amor é um atentado anarquista!"

Ala de Criados, de Mauricio Kartun, tradução e adaptação Teatrão*

domingo, 19 de maio de 2019

Finisterra: terra de pescadores-poetas (pescam peixe e deleitam o Homem)

De como a doçura aparece ao visitar o museu da pesca de Finisterra e o guia é um ser humano poeta

“Hei naufragar nas vagas dos teus ollos onde a brisa é dozura e o mar tenreza envolto por argazos furibundos que me esgaduñen feros as espaldas. Hei reflectir nas ondas intanxíbeis o pélago onde afondas as meixelas, os penedos sinceros do teu hálito, os temporais severos do teu ventre. Hei falecer nas dondas turbulencias, na pube onde me escondas o desexo, nos manaciais austeroros dos tesu beizos... E curarei as chagas co sal morno que mana da
fondura do teu corpo até perder os azos que me erguen... E bicareite núa cada
instante... (...)”
Alexandre Nerium


Quod Nihil Scitur
Água significa ave isto é
a forma de exprimir a parte míni-
ma das essências. Diminuir a área da
imagem. Mas profusa. Separando
nomes. Dividir o abstracto
em fotões. Nomear para viver
parcimoniosamente na lite-
ratura. Paradoxo causado pela Ode.
Pela Presença.
Frase, fruto do texto passageiro. Olhar
para as palavras. Ver o vazio a pre-
encher-se linearmente. Erro ino-
cente. Um equívoco pictográfico.

Fiama Pais Brandão, "Três rostos”, 1989