terça-feira, 18 de janeiro de 2022

What have you learned?

Thank you, R, for the beautiful movie* 



  • (Laurence Olivier) "I took you to pieces like a watch. And put you together again. It was a very intimate experience. I have never been able to forget it. May I ask you a question?"

  • (Anthony Quinn) "You never hesitated before."

  • (Laurence Olivier) "That is true."

  • (Laurence Olivier) "This is you. Political prisoner 103592R, Kiril Pavlovich Lakota. All of you is here, from the day you were born until now. Except for the answer to one question. What have you learned in twenty years of confinement?"

  • (Anthony Quinn) "That is a big question, Piotr Ilyich."

  • (Laurence Olivier) "The answer is important to me, you know."

  • (Anthony Quinn) "What I have learned? I have learned that without some kind of loving a man withers like a grape on a dying vine."

  • (Laurence Olivier) "Is that all?"

  • (Anthony Quinn) "I am trying to learn more."

  • (Laurence Olivier) "Have you learned enough to face freedom?"

  • (Anthony Quinn) "I have been free for a long time. Not entirely, perhaps. But you have not answered my question. Why have you brought me here?"

  • (Laurence Olivier) "I want to show you a world gone mad."
The Shoes of the Fisherman, 1968

domingo, 12 de dezembro de 2021

ser olhado, amado e conhecido

Faleceu um amigo de repente, de manhã.

e, na homilia de hoje, o tema do terceiro domingo de advento foi a Alegria.

complexo poder sentir tudo isto num só dia, mas esta Alegria é uma alegria que não é de instagramer, de gargalhada fútil e superficial, é uma alegria de sentir a companhia e o apoio do Senhor no caminho, ainda eu não sei bem o que isso significa. e o meu amigo faleceu e não o verei mais ao balcão com aquele sorriso pândego ébrio, no ambiente de maresia.

estava o meu corpo lá e a mente vagueava, por todo o lado, pelos textos que iam lendo, pelos (a)braços abertos do Cristo de madeira, pelo hossana que se escutava nas vozes límpidas dos jovens. 

sei por que venho aqui: a música enleva-me.

de repente, a mente vagueando, o padre disse "e cito de novo o poema de Sophia de Mello Breyner", 

orelhas em riste, ah espera, que isto é o que me faz sentido, misturar livros, dissolver palavra na palavra, saborear cada sílaba e a poesia de cada texto, já que o texto é sagrado, qual deles? não são todos? imortalização de palavras, escrevo para ser dizia o meu Vergílio Ferreira. eu escrevo para ver se sai de mim esta ansiedade que não me deixa dormir há meses uma noite sem pesadelos.

oh, Sophia! Sophia na boca dos Jesuítas, porque quem caminha com Deus é olhado, amado e conhecido. que assim seja.

"Escuto mas não sei

Se o que oiço é silêncio
Ou deus

Escuto sem saber se estou ouvindo
O ressoar das planícies do vazio
Ou a consciência atenta
Que nos confins do universo
Me decifra e fita

Apenas sei que caminho como quem
É olhado amado e conhecido
E por isso em cada gesto ponho
Solenidade e risco"

Sophia de Mello Breyner

terça-feira, 26 de outubro de 2021

podemos ter várias vidas






por muito que nos abracem, nenhum abraço é semelhante àquele abraço reconfortante, em que parece que todas as nossas peças partidas se fundem e (re)colam magicamente.

segundo diz a Tokyo ( La Casa de Papel), podemos ter várias vidas.

já não cremos em nada. mas não deixa de ser uma das melhores séries que já vi. 

acreditemos em nós próprios, pois vidas não há mais. 








terça-feira, 5 de outubro de 2021

look at your life through heaven's eyes




Aos meus irmãos, Leonor e Roberto



"ela voltou-se suavemente de lado e mostrou-me o dia, preso numa parede cristalina de sono. Apresentou os seus segredos nocturnos ao mundo de olhos verdes e a mim",

in Aníbal, por Ross Leckie.


Quando te vês pelo olhar de um irmão e ele tem a capacidade de captar a tua essência, observas algo que se calhar não te aperceberas antes. E é maravilhoso sentires que te rodeiam seres humanos com abraços calorosos e amigos do coração.

Photos by Roberto Gil (nascer do sol, 2 de outubro 2021, Sto António da Neve, Trevim, Serra da Lousã)






 

domingo, 8 de agosto de 2021

cada camarinha adocicada pelo sol...

A Nossa Sra dos Aflitos é a padroeira da Praia do Pedrógão. 

Nunca me deu para estas coisas - tinha dois avôs opostos, um perfeitamente ateu e contra o sistema religioso, outro devoto da Rainha Santa e participante activo, enquanto pôde, da procissão e das celebrações do 4 de Julho de Coimbra - mas elas exalam, sem dúvida, um mistério interessante de observar.

Aqui, na praia, levavam o andor pela marginal e pela rua perpendicular à nossa, todavia a praça enchia-se de música pimba, para contraste incrédulo perante a minha (falta de) compreensão.

O que mais apreciei, quando por cá estava nas festas, foi a procissão das velas à meia noite, abrir as portadas do quarto, espreitá-los a caminhar solenemente, sob o morrinhar característico daqui e este odor forte a maresia.

Mas envolver-me não consigo, encontro o divino apenas nos grãos de areia e nas ondas do mar, nos pinheiros da mata que outrora conferia sombra. Já passaram anos desde o incêndio. 

O tempo passa demasiado depressa, mas aqui saboreio cada sílaba, cada gota salgada, cada camarinha adocicada pelo sol...



domingo, 1 de agosto de 2021

os sentipensantes e o trabalho em série

Depois de ler a frase de Eduardo Galeano, deu-se aquela aparição pensante que fere como um relâmpago a rasgar o tronco de uma árvore e ilumina tudo em seu redor.

Os sentipensantes pensam e sentem sempre de uma vez, todas as vezes, não separam emoção de razão, nem o corpo da mente (e é isso possível? pergunto-me como sentipensante desde que me conheço, descoberto finalmente um belíssimo adjectivo para o que sempre me regeu).

Ser sentipensante é maravilhoso, é dar de alma e coração, mãos abertas, mas é sofrer com a rejeição de quem apenas racionaliza a vida e nos atira com frieza as suas decisões descartadas de amor e emoção.

Nós, os sentipensantes, viemos a este mundo para ser felizes, pelo menos eu vim, os meus pais não me deram a vida para não fazer dela o melhor que eu puder e isso passa por ser feliz, por me nutrir, por me dar o que mais amo e estar rodeada de pessoas que, como eu, sejam sentipensantes também e se valorizem e valorizem o seu quinhão de vida. A moira, essa porção de tempo que é dado a cada um de nós nesta vida para percorrermos o nosso caminho, não é para desperdiçar. Já o fatum não creio muito nele, o livre-arbítrio está acima dessa ideia de destino que deus(es) preconizaram para nós. E talvez eles me observem lá do Olimpo, e revirem os olhos e batam com a palma da mão na testa, frustrados com as minhas escolhas. Muito possível, e rio-me à gargalhada com essa ideia.

Os dias rolam, madrugada após madrugada. Nem tudo são rosas e o peso das escolhas começa a ferir os braços e as costas, já para não deixar de lado a frustração emocional de trabalhar num local onde há colegas que fazem questão de fazer bulliyng e me levam a mente e o corpo de volta à Ana pequenina da infância. Mas esta, à época, não sabia que o problema não estava nela e sim neles e não soube responder. Hoje sabe que aquelas manifestações são os problemas que as pessoas têm consigo próprias e que em nada retira o meu valor próprio, mas mói e causa mau ambiente.

E juntamos a isto trabalhar num local onde se pratica precisamente aquilo que é o contrário do que defendo. Sou pela medicina narrativa, o utente ser uma pessoa e não mais uma cama, um todo holístico, tido por inteiro. Ali não, entram utentes de 5 em 5 minutos, o relógio dominador a contar ao segundo, quase não tenho tempo de conversar, de os escutar, é trabalho em série, parece uma fábrica de produção em massa de tratamentos que, na rapidez e na indiferença, nada fazem.

Há calor humano, sim, e eu abraço-o, mas o tempo escorre-me das mãos, as campainhas tocam constantemente e até nos pesadelos me ferem os ouvidos, já ouvi resmungar e chamam-me à atenção com maus modos porque demoro muito com cada pessoa e nem dez minutos lhes posso dispensar.

Nasci para ajudar a cuidar o outro sim, mas não assim, não assim e, lá está, não consigo só racionalizar, a emoção está sempre presente, não consigo ver apenas como um biscate que me paga contas, estão em jogo pessoas doentes, com dores, seres humanos que merecem atenção e carinho. 

Quanto tempo arcarei com isto às costas se não compactuo de alma e coração? Além da fadiga de corpo, há uma fadiga emocional, uma ferida que abre a cada dia mais, pela frustração e o stress perante a injustiça.

oh, ser sentipensante é todo um mundo!






segunda-feira, 19 de julho de 2021

Ganhei o dia

Acordo com o nascer do sol para mais um dia.

Terei escolhido mal a vocação, deveria ter seguido a área da saúde desde sempre? Mas a base humanista serve-me tanto.

Morrinhava quando saí de casa, os cafés por abrir, a madrugada a deixar lugar à manhã.

O silêncio da clínica, as persianas ainda cerradas, o vazio que se encherá bem depressinha à medida que os ponteiros do relógio avançam.

É este o Presente, o Aqui e o Agora, mas as rotinas vão-se estabelecendo e conhece-se aos poucos o futuro próximo.

Às 2ªs, 4ªs e 6ªs vem a D. Celeste, sempre aprumada, o cabelo cinza bem arranjado, saúda-me sempre, "A Mna Ana, como está"?

A D. Alzira, pequenina e trigueira, quando me vê diz numa doce voz "Que Deus nosso Senhor lhe dê saúde". "A ambas", respondo eu, "a ambas, que eu não a quero ver cá muito tempo" e ela ri-se como um passarinho, como fazia a minha avó, mãe do meu pai.

O Sr. Eduardo vem ao fim da manhã, é um homenzarrão novo, com ar de motoqueiro e um vozeirão que se ouve na clínica inteira. Como faz tratamentos mais demorados, quando volto do almoço exclamo sorridente "Ainda aqui"? "É que eu gosto tanto disto", diz-me ele a rir. 

Às 3ªs e 5ªs, a delícia que é ver chegar o Sr. José, sempre sem pressa, mas sempre a querer fugir. Quer ir para a Figueira, onde tem uma casinha, quer ir para alto mar, pescar. O Sr José tem a pele tisnada pelo sol, o sorriso franco. Vou chamá-lo à entrada, medir-lhe a temperatura, "O Sr José quer vir comigo?" Responde sempre "Então não vou? Divorciava-me já!" e faz-me rir. Já me contou embevecido que foi doceiro toda a vida, fazia o chocolate, o ponto de caramelo, os bombons, as coberturas, agora não quer cozinhar nem por nada, só se os amigos lhe pedirem muito. "E conheci a minha mulher na doçaria", afirma ele, sorrindo feliz. Fala da vida, da filha, das coisas simples, do mar e do sol e há todo um oceano naquelas palavras.

Há outro senhor, do qual ainda não decorei o nome, cujos olhos são azuis cristalinos. Sempre que termino o tratamento, exclamo "Está novo!" e ouço-o a rir com gosto, "Estou estou!". Fala da mulher com ar triste. Ouvi-o partilhar com um terapeuta "Passei 50 anos da minha vida com ela e agora que ela está assim é que a vou deixar? Claro que não! Não me conhece, mas conheço-a eu". Não conheço a história, mas subentende-se. Disfarcei como pude, contudo as lágrimas apareceram nos beirais e salvou-me, neste caso único, a porcaria da máscara que já não suporto, para disfarçar o meu semblante. 

A Humanidade está aqui e quanto amor e bondade há no Homem!

São tantos os que desfilam naquele corredor, que desfilam as suas dores, os seus lamentos quando pergunto "Como passou?", mas depois saem sorridentes, mais leves talvez, imagino eu, quero eu acreditar que sim, nem que seja com o espírito reconfortado pelo abraço de um olhar meigo e de um "até amanhã" com a perspectiva e a fé nas melhoras. 

Depois, há a minha homónima. Ajudo-a a virar-se na marquesa, abraçamo-nos, ajudo-a a revestir-se do seu luto, depois dos tratamentos, calço-lhe os sapatos e chego-lhe a bengala. Encostou a testa à minha e confessou-me que adorava cantar. "Agora a voz já não me sai como saía", diz dolorida, "mas ainda canto e sobretudo toco viola. Fui professora de criançada toda a vida, oh como é bom!". Sorrio com o olhar, sorrio com o corpo todo, porque a máscara tira-nos a expressão partilhada das feições, e peço-lhe que não deixe de cantar, pelo menos para si mesma, se é algo que a conforta.

O conforto, penso, para muitas daquelas pessoas é o parco tempo que ali passam. Para a maioria talvez seja até dos poucos momentos do dia em que conversam com alguém. 

Como quando fiz voluntariado com as crianças do Hospital Pediátrico e da Acreditar, pergunto-me quem ajuda mais quem? Se sou eu (nós) que procuramos amenizar aquelas dores, físicas e de solidão, ou se são eles (os utentes), que me (nos) dão momentos de pura alegria e iluminação humana, seja num sorriso, numa mão que pousa no nosso braço, quando me apertam a mão reconhecidos por uma ninharia que lhes fiz. Sei bem que não ligo apenas as máquinas, nem os cronómetros que ditam o tempo de tratamento, sei que estar lá influencia, com o toque, o tom de voz, um "até já, já venho ter consigo", tudo detalhes que não se esquecem, mas ainda assim, chego ao final do dia com a sensação do tão pouco que tenho para oferecer e da quantidade de bençãos e amor e carinho que recebo. 

Hoje morrinhava, "Está fresquinho", ouvi dezenas de vezes pela manhã, mas ali há calor, calor humano. "A menina começou a trabalhar há pouco tempo aqui? Nunca me tinha tratado... Pois Deus lhe dê sorte que é tão novinha!". "Olhe que não, menina", disse eu que as chamo meninas e derretem-se todas, "olhe que não". "Então, não é? Não tem mais de 23 aninhos, me parece".

Uma sonora gargalhada ouviu-se em toda a clínica, por certo. E eu, eu ganhei o dia.