segunda-feira, 13 de outubro de 2014

A Avó Luisette


A Avó Luisette

Por vicissitudes várias, desencontros, quezílias familiares, outros absurdos, a Avó Luisette, avó paterna, nunca foi uma Avó presente até eu me indignar do alto dos meus 12 anos rebeldes e decidir que, como todos os adolescentes, queria voltar a dizer a frase tão natural: “Vou a casa da Avó”.
E fui mesmo, a casa dos Avós, aliás.
Breve foi o nosso encontro, uma vez mais por vicissitudes várias, desencontros, quezílias familiares, outros absurdos, mas a Avó Luisette esteve, está e estará sempre presente, sobretudo nas pequenas coisas que são as que não se esquecem nunca.
Nos meus doze, treze, catorze anos rebeldes e pouco femininos, via uma Avó bonita, de brincos e colares de pérolas e verniz cor-de-rosa nas unhas. Não esqueço o dia em que me colocou o colar ao pescoço e me pavoneei casa fora sentindo-me uma senhora.
A Avó Luisette foi a avó que me ensinou os sinais de trânsito, que me ensinou a fazer ovos mexidos! (Pudera! Quando não se podia comer ovos mexidos ao lanche, em casa, porque os pais proibiam, aproveitava-se para fazer essas maroteiras em casa dos Avós com os primos! E com que alegria eles nos deixavam! O Avô Rui até fotografias disso tirava!)
Todos os dias faço ainda questão de escrever à mão, apesar do uso diário do computador, porque não esqueço a caligrafia linda que a Avó tinha e o brio que me incutiu de manter sempre a minha também! Guardo as primeiras cartas que me foram endereçadas, com o destinatário “ Ao cuidado da Exma Menina Ana Maria”, escritas do Pedrógão pela letra bonita da Avó! E lá estão guardados os postais que eu lhe mandava, com o Mickey, e a falar de bandas de música e das férias, os primeiros escritos que enviei por correio!
Foi ainda a Avó Luisette que me ensinou a bordar...Ponto de Cruz, Ponto Pé de Flor... Crochet é que a Avó não conseguiu, não por falta de mérito pedagógico seu, mas pela minha azelhice com as agulhas! Mas ainda hoje, sempre que possível, lá sai mais um bordado...
Não sei se terei filhos, muito menos netos, mas sei que eles vão saber quem foi a Avó Luisette e o que me ensinou, e só espero ter o sorriso e a paciência para transmitir esses ensinamentos como ela teve para comigo, paciência infinita para escutar as minhas ininterruptas perguntas, a minha vontade teimosa e para ter-me concedido tratá-la por "Tu", por muito que lhe fosse estranho.
Bem-haja.

Ana Seiça Carvalho
Valência, 13 de Outubro de 2014

quinta-feira, 28 de agosto de 2014

Por que foi então que te roubaram o mundo?

“Carta a Josefa, minha avó” (1968)

No ano de 1968, José Saramago publicou no jornal A Capital, de Lisboa, a crónica Carta a Josefa, minha avó. Anos mais tarde, ela seria publicada no livro Deste Mundo e do Outro. Abaixo segue a reprodução da página do jornal A Capital em que foi originalmente publicado o texto.carta



Carta para Josefa, minha avó

Tens noventa anos. És velha, dolorida. Dizes-me que foste a mais bela rapariga do teu tempo — e eu acredito. Não sabes ler. Tens as mãos grossas e de formadas, os pés encortiçados. Carregaste à cabeça toneladas de restolho e lenha, albufeiras de água.

Viste nascer o sol todos os dias. De todo o pão que amassaste se faria um banquete universal. Criaste pessoas e gado, meteste os bácoros na tua própria cama quando o frio ameaçava gelá-los. Contaste-me histórias de aparições e lobisomens, velhas questões de família, um crime de morte. Trave da tua casa, lume da tua lareira — sete vezes engravidaste, sete vezes deste à luz.

Não sabes nada do mundo. Não entendes de política, nem de economia, nem de literatura, nem de filosofia, nem de religião. Herdaste umas centenas de palavras práticas, um vocabulário elementar. Com  isto viveste e vais vivendo. És sensível às catástrofes e também aos casos de rua, aos casamentos de princesas e ao roubo dos coelhos da vizinha. Tens grandes ódios por motivos de que já perdeste lembrança, grandes dedicações que assentam em coisa nenhuma. Vives. Para ti, a palavra Vietname é apenas um som bárbaro que não condiz com o teu círculo de légua e meia de raio. Da fome sabes alguma coisa: já viste uma bandeira negra içada na torre da igreja.(Contaste-mo tu, ou terei sonhado que o contavas?)

Transportas contigo o teu pequeno casulo de interesses. E, no entanto, tens os olhos claros e és alegre. O teu riso é como um foguete de cores. Como tu, não vi rir ninguém. Estou diante de ti, e não entendo. Sou da tua carne e do teu sangue, mas não entendo. Vieste a este mundo e não curaste de saber o que é o mundo. Chegas ao fim da vida, e o mundo ainda é, para ti, o que era quando nasceste: uma interrogação, um mistério inacessível, uma coisa que não faz parte da tua herança: quinhentas palavras, um quintal a que em cinco minutos se dá a volta, uma casa de telha-vã e chão de barro.

Aperto a tua mão calosa, passo a minha mão pela tua face enrugada e pelos teus cabelos brancos, partidos pelo peso dos carregos — e continuo a não entender. Foste bela, dizes, e bem vejo que és inteligente. Por que foi então que te roubaram o mundo? Quem to roubou?

Mas disto talvez entenda eu, e dir-te-ia o como, o porquê e o quando se soubesse escolher das minhas palavras as que tu pudesses compreender. Já não vale a pena. O mundo continuará sem ti — e sem mim. Não teremos dito um ao outro o que mais importava. Não teremos, realmente? Eu não te terei dado, porque as minhas palavras não são as tuas, o mundo que te era devido. Fico com esta culpa de que me não acusas — e isso ainda é pior. Mas porquê, avó, por que te sentas tu na soleira da tua porta, aberta para a noite estrelada e imensa, para o céu de que nada sabes e por onde nunca viajarás, para o silêncio dos campos e das árvores assombradas, e dizes, com a tranquila serenidade dos teus noventa anos e o fogo da tua adolescência nunca perdida:

 «O mundo é tão bonito, e eu tenho tanta pena de morrer!»

É isto que eu não entendo — mas a culpa não é tua.

Retirado daqui.

Vídeo realizado por André Raposo, adaptado do texto de Saramago 

quarta-feira, 27 de agosto de 2014

E o corpo dança porque aprendeu com as ondas

"A dança traz o silêncio, pensou Marta, cadência apenas, alegria do corpo. Alguns dos dançarinos, amigos ou gente de outras vilas, sabiam-no sem ter o saber de Marta.
Dançavam calados, oferecendo-se à dança, desenhada segundo os costumes, os de uma cultura lenta e singular, que os unia entre si, os que a aceitavam e os que a praticavam."

Fiama Hasse Pais Brandão (1999), Sob o Olhar de Medeia, Relógio D'Água, Santa Maria da Feira, p.137

sexta-feira, 18 de julho de 2014




"O homem é, por desgraça, uma solidão: Nascemos sós, vivemos sós e morremos sós".

Miguel Torga

(que talvez tenha proferido esta frase no elogio fúnebre de Afonso Duarte, poeta português que faleceu no dia 5 de Março de 1958).

terça-feira, 15 de julho de 2014

O homem é bailarino pela sua própria condição...O que se lhe acrescenta é pouco, quando realmente dança: a afirmação expressa de que o seu destino é não ter peso"

Vergílio Ferreira (1969), Invocação ao Meu Corpo, Portugália, Lisboa, pp.301-302.

sexta-feira, 4 de julho de 2014

Grita comigo

"Merda para a choradeira!
- Grande é o homem e a vida, meu caro! Limpa o rabo a isso!
Apressa-te, apressa-te! A vida urge, a vida não espera. Que cretinice, por exemplo, dizeres "faz hoje dois anos que vim para a Universidade" ou "daqui a três anos estou formado". Não digas! Não digas! Não digas que "faltam três anos para que a minha formatura seja uma coisa morta". Grita comigo, não que "faço hoje vinte e três anos" mas que "faz hoje vinte e três anos que eu estava para ser o que vou ser hoje". Grita comigo qualquer coisa que não seja a morte antes da morte."

Vergílio Ferreira (1990), Apelo da Noite, Venda Nova, Bertrand Editora, p.25.

domingo, 22 de junho de 2014

Aqui, no Pedrógão


Faço minhas estas palavras

“Há coisas que nos marcam para sempre. Uma imagem, um cheiro, um som, uma palavra, um silêncio.
O Pedrógão também me marcou para sempre. O seu Mar imensamente azul, e aquele seu Sol que sempre nasce tímido, mas que se põe encostado ao azul das águas, deslumbrado, foram, quantas vezes, os meus companheiros!...
No Pedrógão passei muitos dos meus tempos de lazer, mas também de reflexão para a acção. (...) Aqui, no Pedrógão, encontro um sol que se põe em paz por entre tons de vermelho e de amarelo vivos, renasço em felizes e saudosas recordações de outros tempos, revivo momentos de felicidade simples, esqueço-me do dia de amanhã, das filas de trânsito, do egoísmo mesquinho de alguns e da perfídia maldosa de tantos outros.
Aqui, no Pedrógão, construo a utopia do espírito de solidariedade, da vivência da amizade, de partilha de sentimentos e de experiências. Este sítio é, para mim, como que a mesa de café onde me encontro com amigos e discuto de tudo... é o porto de abrigo onde atraco o meu barco viageiro para refazer forças... é a box onde encosto o carro da vida quando finalizo mais uma corrida...
Quando era muito novo, e só vinha no mês de Agosto, a chegada era um alvoroço mas a partida era dolorosa. Sentado no paredão da esplanada, pensava, olhando o mar, como teria começado tudo aquilo, quem teria sido o primeiro habitante e por que teria escolhido aquele sítio de sonho, entregue às gaivotas, aos ventos e às espumas.
Lá estão elas, acima do mar e da costa, brancas, ligeiras, finas. Elas voam, puras e livres, como eu gostava de ser!...”

António Inácio Nogueira, Praia do Pedrógão, Locais, Gentes e Memórias, Magno Edições, 2006, partes do Prefácio.