quinta-feira, 3 de março de 2016

A invenção de cada hora que nos vibra nos ossos


Ao Sam

 

"Toda a minha vida disponível a dediquei à literatura. (...) muita coisa sacrifiquei a isso. Mas não me queixo. Mesmo que eu seja realmente um escritor menor, como muitos me têm repetido para a hipótese de eu me esquecer. Não é o ser maior ou menor que está em causa: é só o ser eu. E é em literatura que sou", disse Vergílio Ferreira em Conta-Corrente II, 1977.

É isto. Não importa ser-se maior ou menor, importa ser-se! e eu não sei ser ou fazer outra coisa que não estudar e investigar literatura, filosofia, dar aulas de dança e dançar. :)

Évora, 2 de Fevereiro de 2016, nas Comemorações do Centenário de Vergílio Ferreira

sexta-feira, 25 de setembro de 2015

O que Fontanelas era para Vergílio Ferreira é para mim a Praia do Pedrógão, a perfeita fusão de mar e mata, um bálsamo, um respirar de novo, uma purificação.

6 de Setembro 1982

"foi o mar que uma vez mais me deslumbrou de fascinação. Havia sol, as águas alargavam-se até a um horizonte de neblina, as ondas quebravam num rolar manso e dormente sobre a breve areia da praia. Cerro os olhos ainda agora, ao cintilar da planura, ao largo rumor marinho, todo aberto ao seu aceno de infinitude. " (Conta Corrente 4, 1986, Bertrand Editora p.107)



sexta-feira, 7 de agosto de 2015

ELA - AGORA

Ana Hatherly, o mar que se quebra (1998). © Ana Hatherly | Centro de Arte Moderna, Fundação Calouste Gulbenkian (aqui)


Não menos que Helena bela
Ela senta-se à janela
Porém não à janela mas às janelas
Do computador
Que abrem portas que são redes
Páginas que são sítios
Avenidas que são ermos
Que agora percorremos
Já sem voz
Cada vez mais sós

Tanta profusão
Atira-nos
Para um lixo que nos deita fora


"Hors-Texte" in A Neo-Penélope, &etc, Lisboa, 2007, p.33. 

terça-feira, 4 de agosto de 2015

"Ama o Impossível porque é o único que te não pode decepcionar"

24 - Março (segunda). Dizem-me às vezes que sou inacessível à emoção - não é curioso? E que não gosto, sou incapaz de gostar, de ninguém. Imagine-se. Em todo o caso, não é fácil sabê-lo. Mas se é assim, a explicação não será difícil. Quando a vida nos habitua a desprendermo-nos dela, a firmarmos o pé em nada, vive-se obviamente no provisório. E se o que mais amamos falha sempre ou disso nos ameaça, o recurso é, para haver o que amar, amar-se o que como "ideal" nunca falha - a harmonia, a tolerância, a paz. Por mim e por sobre tudo, amo a vida, que é o onde acontece o que há-de amar-se ou não. Mas  que põe em causa as relações individuais não é de prender muito. Por desencanto prévio, pois. E por prudência. Pelo que for. Assim as surpresas não surpreendem. Ou quase.

Vergílio Ferreira (1981), Conta Corrente 1 (1969-1976), Livraria Bertrand, Amadora.

terça-feira, 23 de junho de 2015

O plano inclinado: Vergílio Ferreira pelo Teatro O Bando


O plano inclinado: Vergílio Ferreira pelo Teatro O Bando



Ao João Diogo Loureiro


As primeiras impressões são mais do que agradáveis. Depois de um dia repleto de passeio, sol, pique nique e descanso museológico, saímos de Palmela bem indicados por um simpático desportista: a tarde caía já e o caminho deserto levava-nos até à sede do Grupo de Teatro O Bando.
Uma casa comprida no meio das árvores aparece-nos na estrada. Cortamos à direita na tabuleta e estacionamos. A vista para Palmela é lindíssima e tiramos algumas fotos aproveitando a luminosidade que torna quase postal o planalto do castelo. É cedo ainda, falta um quarto para as oito e já lá pousam dois automóveis. Subimos o caminho e as escadinhas e entramos num antigo celeiro todo decorado com chapéus de chuva coloridos, sofás pretos, almofadões. As vigas do tecto estão pintadas com poemas a letra gorda e redonda. À esquerda mesas meias postas, um balcão com petiscos. À direita uma mesinha com duas meninas a receber. Lá dizemos ao que vimos, as reservas feitas, querem petiscos ou o prato principal para jantar?, dois bilhetes. Lasanha e salada é o prato da noite, vinho a colmatar, mas os petiscos são ainda mais convidativos, o pão a espreitar da cestinha, o queijo, os pastelinhos de bacalhau. A sopa quentinha está divinal pois apesar do dia quente começou já a arrefecer e avizinha-se um serão fresco. Quando reservamos o bilhete por email, o grupo aconselha os espectadores a trazer roupa confortável e quente, mas que de qualquer modo, estarão sempre prevenidos com sacos cama e sacos de água quente… estranhamos a mensagem, mas vamos preparados com agasalhos, No carro, casacos a mais, uma camisola e meias. Em boa hora! Exploramos um pouco o terreno e caminhamos pelo monte e pela estrada, observando os carros que vão chegando. Voltamos para dentro, o celeiro enche e um rapaz de sobretudo encarnado vem tocar o sino e chamar a atenção do grupo que o circunda. Seguimo-lo, quase às escuras, monte acima, por outras escadinhas, outro edifício por trás, onde duas meninas nos entregam efectivamente um saco-cama e um saco de água quente a cada um. Aceito ambos e seguimos para fora desta segunda casa. Sentamo-nos na fila da frente de cadeiras e nada se vislumbra, apenas uma cerca alta dentro da qual se vê o topo de um carrinho de mão vermelho. A peça inicia com o queimar de incenso em dois grandes vasos de barro laterais.
Estamos numa plateia ao ar livre, crepitam as chamas, ouvem-se cigarras, estamos em plena Serra da Arrábida e o incenso é fortemente especial e entra pelas narinas fundido com o cheiro a terra, a luz ténue a iluminar os troncos de videira retorcidos em cima do carrinho de mão.
Ergue-se um homem sentado nos troncos, começa a peça, é João Vieira, o idoso a quem a filha coloca num lar. Surge a D.Felicidade, dona do lar, interpretada por uma actriz que se desdobra em muitas outras. Mais tarde, aparece a filha Márcia e o filho Teo, personagens planas que não se alteram, os dois principais desdobram-se em mil e desfilam aos nossos olhos: D Felicidade, Mónica, as enfermeiras, o Salus, as velhinhas do lar, o Holofernes, o Capelão, a voz do Cristo, a Voz da rádio salustiana, a médica que decide a amputação da perna. O Cristo é um tronco, ou dois, em cruz… tudo se conjuga no cenário, as roupas escuras, pretas, esfarrapadas, a lembrar o que é velho e destruído.
As cenas dos banhos são focadas, há banho de cinza, de terra, há o rio sempre evocado “ali em baixo” e muito bonito, na memória de quem não poderá lá voltar.
E “são horas” diz D.Felicidade, são sempre horas, do banho, do almoço, da visita, do banho de novo, são sempre horas e as horas passam e não voltam atrás, daí a velhice que caminha no suave plano inclinado que é o carrinho de mão. À medida que a noite avança, a escrita de João torna-se mais caótica, o titubear da cabeça, a baba quando come, sinais da sua visível deterioração que cresce ininterrupta e o carrinho de mão bascula, o palco inclina-se, João vai caindo, a cabeça mais baixa para o seu destino que é a terra. D.Felicidade/Mónica chama sempre “são horas” e são sempre horas e as horas passam e João repete, com voz cada vez mais sumida: “Já vou”.
Estremeço, conhecer a obra a fundo permite-nos vivê-la, se possível, mais ainda, mas também levar connosco expectativas que poderiam gorar o prazer da visualização, será que o encenador vai seleccionar esta cena? Será que vão repetir esta frase chave deste episódio? 
E o André que nunca está, o terceiro filho desterrado voluntariamente para parte incerta… Mónica, André - grita João. Já vou. São horas.
O céu estrelado da Serra da Arrábida, o carrinho de mão basculante guindado no ar, chia terrível e o plano quase já na vertical... D.Felicidade agarra-se como pode, ainda não é a sua hora, João reconhece que é tempo, a Morte dá a sua pancadinha no ombro, o sinal de que são horas e João responde “está bem”. Coloca dois pedaços de videira sobre os olhos numa imagem clássica das moedas de Caronte. Dobra os braços sobre o peito, corpo acabado, e o carrinho de mão na vertical, João desce, desce, resvalam os ramos de videira com estrondo, resvala João.
Engulo as lágrimas que brotam sem parar, levanto-me dentro do saco cama, cai-me o saco de água quente ao chão, ecoam as palmas pela Serra da Arrábida.
São horas.
Está bem.
Palmela, Domingo 24 de Maio de 2015,

Ana Seiça

quarta-feira, 27 de maio de 2015

Porque também tenho uma Marianinha

Porque também tenho uma Marianinha

Não é a primeira vez que Aquilino Ribeiro faz a sua aparição solene no blogue. Reler A Batalha Sem Fim, o livro que me fez enamorar-me do autor, leva-me agora a descobrir outras pequenas delícias da literatura infantil.

Este livro, Marianinha, leva o teu nome porque foste tu a musa – para empregar a linguagem usada nos bons velhos tempos do metro e da rima - que o inspirou.
(…)
Para o meu amor pequenino, compus agora estas prosas rimadas. Leram-nas já homens de cabelos brancos como eu, esses que de velhos tornam a meninos, que, parece, lhes acharam alguma graça, e novos, a partir da idade e saber com que se entra para as escolas, que folgaram com elas.Tenho esperança, Marianinha, que, algum dia, já eu longe do mundo, as leias e te façam sorrir.” 
in O Livro da Marianinha, livro escrito em verso que dedicou à primeira neta,como se lê.

sexta-feira, 3 de abril de 2015

Os habitantes do "melhor lugar do mundo"

Aos meus Pais e à M.
Aos habitantes do "melhor lugar do mundo"

Vinte e cinco anos depois voltamos ao "melhor lugar do mundo", todos juntos, os progenitores e a prole, com mais um ser que, à época, nem existia. 
M. tem vinte e três anos, não viveu esta vida, não conheceu os dois habitantes do "melhor lugar do mundo", embora Ele ainda a tenha enroscado no colo e olhado para ela sabendo quem ela era, apesar de estar preso à cadeira de rodas e ao incomunicável que breve cedeu ao silêncio. Ela nunca soube que M. viria a ser quem é e M. nunca a olhou nem lhe sorriu. Mas Ela teria amado M. como me amou, teria ralhado, abraçado, mimado, como fez comigo nos meus primeiros cinco anos de vida. 
Instintivamente, a minha mãe vai ao armário, desce do quarto trazendo no braço o casaco de malha grossa encarnado que Ela vestia nessa 5ª feira, no "dia para esquecer". 
Seguimos, seguimos todos, estrada fora, até aparecerem os tão bem conhecidos pináculos góticos rendilhados, à vista dos quais a minha mãe começava a cantarolar à criança do banco de trás entusiasmada. Vinte e cinco anos depois, voltamos juntos ao Mosteiro de Santa Maria da Vitória, à Vila da Batalha. A mesmíssima criança - agora com os seus trinta, continua no banco de trás, mas a mãe não vai cantarolar. No entanto, mesmíssima é a emoção sentida quando o Mosteiro preenche a imagem da janela do carro quando se dá a curva. E agora, no banco de trás, tenho M. ao meu lado.
Subimos a encosta e o calor envolve-nos, a tarde ensolarada não traz porém lágrimas, mas uma saudade imensa, como se nada daquilo fosse real. Passei a mão pela pedra macia, empoeirada, com os nomes deles e as letras a sumirem-se pelo desgaste do tempo.
Vinte e cinco anos depois voltei ao Mosteiro da Batalha e Ela levou-me pela mão, criança de novo, e eu corri nave fora, iluminada pelo sol que surgia dos vitrais e ria-me porque o fim do caminho era o colo dela. 
Mostrámos o Mosteiro a M., mostrámos a casa, o "melhor lugar do mundo", a oficina dele, a envolvência, a vida que M. não viveu, mas vive através de nós.
Não vou perdê-los nunca, porque vivem em mim, mas as letras, ainda que símbolos, serão reavivadas e o casaco de malha grossa encarnado que a minha mãe veste agora, vesti-lo-á M. ou eu um dia. 
Apesar do "dia para esquecer" ter existido numa 5ª feira há vinte e cinco anos, eu sou Eles e Eles continuam aqui.

“De toda a tragédia que foi o teu fim, tu ressuscitaste e és agora a presença iluminada de ti. Há o teu ser profundo que não morre nem envelhece”,
Vergílio Ferreira, Cartas a Sandra
 
Ele&Eu, Vila da Batalha, 1989


Ela&Eu, Vila da Batalha, 1989