domingo, 30 de agosto de 2020

"o tempo de Deus não é o nosso, entendeu?"

Não sei ser Eva, só Eva. E mesmo assim, Eva comeu a maçã por amor ao conhecimento e convenceu Adão então a experimentar também... Mas não chega, ele não viu a luz positiva do saber. Condenada desde tempos imemoriais, deixou-se estar ao lado de Adão, que igualmente a culpou. Mulher.
Não sei ser só Juno, embora enraíze em mim a estrutura da partilha dual.
Não sei ser só uma coisa.
Não sei esperar que me digam o que fazer, como fazer.
Não sei.
Iluminar as sombras é surpreendente e, ao mesmo tempo, assustador; mudar de pele ao longo do crescimento vital é um processo transformador e doloroso, mas necessário.
"Nós iluminamo-nos nas sombras" e a idealização e admiração mútuas são belas, mas se não nos pusermos na pele um do outro, se não procurarmos ver o mundo, de quando em vez, pelo olhar do outro, o nevoeiro cinza manter-se-á.
Porque um aguenta o relâmpago, o outro não.
Dói como estalo a trovoada que se gera, o silêncio da escuridão parece mais fácil do que gritar na luz.
Nós somos dois signos cardinais, dois galos em teimosia a ver quem mais tempo se aguenta no poleiro e que, ao mesmo tempo, se dão as mãos para o outro não cair.
Simplesmente eu quero correr, sair da escuridão, arrancar-te dela e sei que saberei acompanhar-te na libertação ao encontro do teu eu, e tu pareces querer embrenhar-te mais um pouco na sombra de sempre, na zona de conforto.
Esperar.
Oh, tenho a minha lua negra tão exaltada, a minha fera Lilith a escorrer espuma das fauces turbulentas. Todas nós a temos, mas a minha Lilith cresceu, agigantou-se no desamor dos últimos anos, nos gritos e nas trevas nebulosas negras em que me deixei enredar. Mas Lilith tem o lado não-submisso que mesmo na luz guardarei.
Lilith abandonou Adão. ai não! virar costas e partir, dizer não à submissão.
Quando penso em Lilith, penso nas Sílfides dos Ballet Russes, criaturas da noite, aladas, que dançavam e associadas a demónios; e penso na dicotomia Odette/Odile do Lago dos Cisnes. E
E ela tem de existir para atingir o equilíbrio, só não deveria estar tão explosiva.
Curiosamente, a minha Lilith toca o teu Sol, é poderosa essa união, mas para caminharmos em harmonia devo saber lamber as minhas feridas ancestrais que oh! estão ainda em chaga.
I see you
I acknowledge you
I free you
Luto e caio e levanto-me e luto e caio e levanto-me.
E nessa varanda estrelada, uma deliciosa criatura, uma árvore de belas raízes disse-me: "filha, o tempo de Deus não é o nosso, entendeu?" Sorri, "não entendi, não", nem tinha como pois não tenho essa chama em mim. "A gente luta sempre, querida, mas só quando Deus quer é que surge". Mas é só chamar-lhe outro nome então (e Shakespeare não nos diz que a rose by any other name would smell as sweet?): quando os planetas se alinham (?), quando o eu está enfim preparado (?), quando o Universo se abre (?), não é quando a mente quer forçando-se a si e ao corpo porque no fundo, o tempo de Deus é quando tudo flui. Não importa o que lhe chamemos se designamos o mesmo e aqui o olhar mútuo poderá enfim compreender-se em plenitude.
Há anos que as palavras de Pablo Neruda se me incrustraram na pele:
"Si nada nos salva de la muerte, al menos que el amor nos salve de la vida".
E vou crendo n'Ele, no Amor. Porque Ele é Amor, não é assim?
Nem poderia ser algo diferente.
E o amor une. E mergulhar no teu peito é ser... é estar em casa.


"En un beso, sabrás todo lo que he callado".

Fotografia de Carlos Gomes

terça-feira, 30 de junho de 2020

a lucidez dói tanto no rebate de uma raquete


Apolíneo e Dionisíaco

a dicotomia complexa de lidar no dia a dia.
Ter força interior e ela não sair. Alguém que me enxovalhou há demasiado pouco tempo disse que eu me contradizia. Cá está.
Acumula-se a raiva nos dentes, a tensão no pescoço e nos trapézios exacerba-se sempre.
Diónisos canta e bebe o vinho alegre ou transforma-se numa tempestade e leva tudo à sua frente. não se deixa pisar, que deus o faria na sua condição superior?
Apolo é a luz e tenho dias luminosos, em que vejo o Belo e o Bem, o Correcto, a Lealdade, o Amor, outros em que me afundo na escuridão, no meu ser ébrio e embrulhado nas trevas dos meus pensamentos. E está tudo bem, ambos são necessários, concomitantes, tangentes, são o par de dança mais completo.
Sou teimosa, digo.
Não, não és - diz a formadora com aquele tom de voz doce - ou, se és, não demonstras. Fazes as coisas de forma subtil com receio de erguer a tua voz. Posso pedir-te um favor? Pega numa raquete, escolhe à vontade.
Escolhi a maior e mais brilhante, prateada, era a de ténis. As minhas colegas que testemunharam ficaram incrédulas. Pois que gestos fiz eu? Como uma dança, movimentos amplos e suaves, mais o lado direito do que o esquerdo. Procurou-se equilibrar depois os dois lados, o formigueiro das mãos atenuou-se.
O meu olhar meio disperso. Dancei a dança das penas do badminton, como uma borboleta, "leve breve suave", Fernando Pessoa não diria melhor. Vamos, "dança a dança da manhã de hoje", parece que ouço o Poeta a falar comigo, já não com a Fada Oriana. Ninguém percebeu por que raio não atirei com força e por que não se sentiu o vento enquanto eu rebatia a bola imaginária. Porque não era feito com força e sim com suavidade, inaudível, pé ante pé, na leveza dos dias para evitar ser criticada. É esta então a minha dicotomia? Quero dizer o que penso e não sai cá para fora? Escolho a raquete de ténis, maior e com a qual devo fazer gestos mais assertivos, que atinjam o chão e marquem pontos e pego nela e manejo-a como uma raquete de badminton que atinge o volante para o manter sempre no ar sem atingir ninguém?

Oh, tantas vezes ela dizia, tantas vezes ela me disse, canta, que lo tienes ahí todo y tiene que salir. Não consigo cantar, porque me sei inferior no canto, porque sei que desafino, ao contrário de outros elementos da família que cantam, eu não o sei fazer. Mas eu sei que a voz já sai, ainda que seja apenas sob a forma de um suspiro saudoso, em memória das canções que ficaram por entoar.

Quando ferida, sai nas sombras da noite com uma força quase prepotente, dionisíaca, obscura, arreganha a dentuça face ao medo e ao futuro incerto. E não é ele sempre incerto? Parece alicerçar o quotidiano num sorriso matreiro, tal como o deus Diónisos que engana os marinheiros para depois lhes ofertar as mais belas vinhas.
Sei que consigo chegar à luz apolínea, já lá estive e ela está em mim, mas está soterrada no lodo. Não me digam o que fazer, não me acusem de mentiras. 
Outra vez, outra vez... Bateste no fundo de novo.
Recomeça se puderes, mas desta vez sob angústia e alguma pressa. Ohh Torga... "Só é tua a loucura", sempre, e a lucidez dói tanto.


terça-feira, 9 de junho de 2020

do amor próprio e do carácter

Lauryn Hill - Tell Him (Audio)

mistérios da fé são como os mistérios do amor.
não se explicam, não se racionalizam. são. estão.
ou não

E nunca

Eu me perdi na sordidez de um mundo
Onde era preciso ser
Polícia, agiota, fariseu
Ou cocote

Eu me perdi na sordidez do mundo
Eu me salvei na limpidez da terra

Eu me busquei no vento e me encontrei no mar
E nunca
Um navio da costa se afastou
Sem me levar



Sophia de Mello Breyner Andresen

sexta-feira, 29 de maio de 2020

Das bagagens

Há bagagem que devíamos deitar fora. Malas e malinhas e bolsinhas e saquinhos que trazemos constantemente connosco.
Por que transportamos tanta bagagem, de viagem em viagem, se já não precisamos dela, se pode até ser-nos prejudicial? 

Se levámos para a neve o fato de ski, as meias de lã e as camisolas térmicas, se calhar para uma praia e destino paradisíaco não temos necessidade. Se sofremos picadas de melgas em Cabo Verde, agora andaremos sempre com a bisnaga de Fenistil atrás? Se fomos assaltados em Berlim, andaremos com medo em Madrid? Se tivémos a sorte de ir a banhos em Valência em Outubro, se calhar não iremos nos Alpes em Fevereiro. Se perdemos, meios bêbedos, a carteira, nas ruas de Barcelona, decerto não voltará a acontecer em Paris. Nem sempre, na nova viagem, se repetem coisas boas que já vivemos noutras, mas conhecemos seguramente outras, melhores até. Porém, o mais importante é não temer que aconteçam de novo coisas desagradáveis e ainda assim, há sempre aquela bagagem que permanece e que não nos conseguimos livrar dela, porque nos marcou dolorosamente, mais do que uma tatuagem.
E quando não viajamos sozinhos e os companheiros de caminho também trazem as suas bagagens?
E em cada nova viagem, as viagens anteriores estão lá para nos fazer lembrar o que sucedeu, para nos pôr de pé atrás?

Aprendemos, pois, que a bagagem de viagens anteriores, por vezes, é perfeitamente desnecessária e, todavia, recordamo-nos constantemente das peripécias dessas viagens e aí reside precisamente o problema: não as podemos alterar, mas o medo de que nos torne a suceder o mesmo premedita a nossa acção, condiciona o nosso sorriso e mesmo quando viajamos com os dedos ainda no mapa (romantismos dos anos 80, vá, agora é tudo google maps!), já levamos a pesada bagagem ainda antes de partirmos e nem sempre conseguimos comprimi-la naqueles sacos de vácuo, para que ocupe menos espaço: um casaco com enchumaços que pesou imensamente nos ombros, um cachecol imenso e negro que nos sufocou de angústia, um vestido que esvoaçou e nos envergonhou, uma saia que se rasgou com um prego cravado e nos feriu, uma carteira que se perdeu e que por lá ficou juntamente com um pouco da nossa dignidade e, com tudo isto, para embrulhar com laçarotes bem brilhantes e visíveis toda esta trouxa, pesa o medo, oh o medo, da bagagem se desprender, se soltar e nos cair em cima de novo.

Mas se temos uma viagem nova, que nos foi dada num cupão de oferta, que caiu de surpresa e a não premeditámos sequer, não há que fazer mais senão sermos nós, pegarmos na nossa roupa preferida ou, como numa praia de nudistas, irmos apenas nós na nossa pele e essência, no improviso do eu e sem guiões de outras viagens, sem os eternos "e se?". É indo e vendo. 
Podemos perguntar na fonte, sim, o que podemos visitar, as lendas do local, as personagens históricas, as melhores iguarias para provar mas, de resto, é para usufruir da paisagem, do sabor, dos cheiros, deixarmo-nos apaixonar pelo que nos envolve, pois há viagens que não têm bilhete de retorno e há caminhos que se desejam percorrer várias vezes ou nunca deixar de neles caminhar, porque como diz Miguel Torga, "o que importa é partir, não é chegar".



Natal na Praia do Pedrógão, 24 de Dezembro de 2019

Por isso, se ainda não embarcámos, é tempo de o fazer, e talvez sejamos capazes de despir esse manto pesado e deixá-lo no cais, essa bagagem que não temos de carregar mais às costas. Se já estamos no ar, como nos balões, atiremos para fora do cesto, aos poucos, para aliviar a carga, uma malinha, um pacote, um saquinho de cada vez. Resta a memória e essa já é pesada que chegue, não precisamos de mais e o balão tem de subir e de ser cada vez mais leve. 

Ou vamos entrar no mar alto, lá onde não temos pé, onde cada vez mais longe ficou a fímbria da praia e onde o horizonte se aproxima a cada remada. 
Vamos. Temos medo? Mas vamos com medo na mesma, e que a bagagem das viagens anteriores se desintegre na espuma das ondas.



Viagem, de Miguel Torga

Aparelhei o barco da ilusão
E reforcei a fé de marinheiro.
Era longe o meu sonho, e traiçoeiro
O mar...
(Só nos é concedida
Esta vida
Que temos;
E é nela que é preciso
procurar
o velho paraíso
que perdemos).
Prestes, larguei a vela
E disse adeus ao cais, à paz tolhida.
Desmedida,
A revolta imensidão
Transforma dia a dia a embarcação
Numa errante e alada sepultura...
Mas corto as ondas sem desanimar
Em qualquer aventura,
O que importa é partir, não é chegar.


quinta-feira, 7 de maio de 2020

Dos Pesadelos II

visitei-te e o passado estava contigo. abriste-lhe a porta e o silêncio bloqueou-te a garganta que chamava por mim. que força obscura me levou a percorrer a distância até à tua porta para me ver confrontada com o que não se deseja olhar e ver? voltei para o meu ninho e o meu passado tinha pontapeado a porta até a arrombar. penduradas em fios de nylon, fotografias a preto e branco de momentos falsamente felizes pingavam do tecto. no silêncio ensurdecedor, só ouvia o seu riso assustadoramente rouco. acordei molhada em suor na manhã da 8ª semana de confinamento, ou 1ª semana de desconfinamento ou já não sei quando estamos.

sábado, 18 de abril de 2020

Dos pesadelos

Voltavas a casa.
Não... não era um voltar, era um invadir.
Tinhas uma chave escondida e entravas.
Acordei e a casa era outra, uma tenda com plantas na sala, tudo espalhado em todas as divisões e tu eras enorme e sombrio e rias repetindo a frase "vai ficar tudo bem". 
Tentavas abraçar-me com uns braços elásticos e enormes e eu não queria acreditar que o meu mundo ruíra de novo.
Escrevi uma carta a quem gostava para que não viesse visitar-me e tudo à minha volta era como o Castelo negro da Bela Adormecida, um dragão a guardar-me e a fazer rebentar árvores com espinhos a toda a volta da casa, apertando-me e sufocando-me até às lágrimas, impedindo-me de ser eu.
Acordo e o sol brilha na manhã da 5ª semana de confinamento.