domingo, 26 de junho de 2022

Crônicas dos Açôures - (IV)

    Carpe Diem Noctemque



Maria olhava o mar revolto, para lá da Poça de São Simão. Verdes e azuis pincelados, melhor do que uma tela. 

Maria Emília era uma senhora incrivelmente alegre. Apesar da chuva que os atacou na volta à ilha, achava tudo maravilhosamente bonito, mas com uma alegria que Maria comentara "adoro como vê positividade em tudo!". Emília soltou uma gargalhada e respondera "Com o que já passei, tinha de ser assim". À noite, com um copo de vinho branco à frente, Maria Emília desabafou a sua narrativa de vida. Perder um amor não é tão doloroso como perder dois filhos e ficar viúva e sozinha nesta vida. Esta relatividade da sua dor fulminou-a e deixou Maria pensativa o resto do serão. 

Em São Jorge, tudo é verde, estonteantemente verde e húmido, de uma beleza de lágrima feliz, as fajãs a morrer na espuma do mar, um azul impossível e translúcido contra a pedra negra das praias.





Cobardia continental, pensa Maria, ficou a mensagem por ler, o esclarecimento merecido por ser verbalizado e proferido. Mentiras e omissões, não entende Maria por que não se comunica assertiva e honestamente. Não havia nada a perder em falar francamente. E mergulha no livro de Nemésio de novo. 

João Garcia fora também um cobarde, encostado ao muro da Quinta, com arreceios do pai de Bidinha. Que homem que ama tem desbrio do pai da amada? Era mas é peito cheio e conversa escancarada.

Bidinha não gostou destas migalhas, desta parca prova de afeição e, numa carta para Lisboa, que João Garcia esperava desesperado, arremessou-lhe com o corte. 
Ambos de parte a parte a morrer de saudades um do outro. 
Garcia acaba por casar com Laura, devedor do pai da moça mas sem nunca esquecer Bidinha. 
E Margarida, a mulher com quem Maria mais se identificara ao longo de todo o romance, alevantada, franca, expressiva, desejosa de se sentir útil e prestável, mas impulsiva sempre, após os desgostos maiores da morte do tio preferido e da aventura entre homens em meio de um baleeiro à cata de um cachalote, termina de forma imprevisível. 
A sua aventura no barco, sozinha, deixou-a mal falada no Faial. Foi graciosamente recolhida na Urzelina, em São Jorge, pelo barão e a esposa, pais de André Barreto, enquanto esperava que saísse de novo um barco de volta ao Faial, quando o mar finalmente se acalmasse.
E Bidinha acaba, por falta de forças e de ânimo e de esperança e de fé, por casar com André, apenas por ser de boas famílias, num conceito de amor perfeitamente execrável.
Choram as cascatas em São Jorge como os olhos de Maria. 

Indiferente à algazarra que faziam na piscina, Maria deitara-se a ler na rede de pano, com a vista do morro do Livramento e o mar como fundo. De braços ao alto, com o livro recortado no céu azul pincelado de nuvens brancas, evadiu-se para 1918, terminou o epílogo com atenção e esmoreceu. 



Afinal, a protagonista desiludia-a, afinal aquela jovem de 20 anos pensava de forma bem diferente de si. Amortalhava-se em vida com a inércia de uma desistência incrível que a desgostava profundamente. 

Margarida e André, após três meses de casamento, lançam-se na lua de mel, juntamente com os pais de André e a irmã, Clara. Vão num navio para a Europa. Bem sabe Maria que os tempos são outros. O que pode fazer sozinha, graças a Deus, não podia Bidinha à época: ir conhecer Roma, Paris, Bruxelas e Varsóvia, ir até à Holanda e Inglaterra mais tarde, mas casar para poder viajar é uma felicidade enganosamente falsa.
Bidinha encontra um velho amigo de infância, no convés, que lhe pergunta pelos noivos, como estão, e esta responde-lhe que o amor de casados é como uma morte, um navio encalhado e seguro, que não vai a lado nenhum:
"Para quem se preza e já não tem ilusões, é a grande âncora (...) ser uma mulher casada é ser como um daqueles veleiros que se deixavam apodrecer meses e meses na horta, amarrados a uma bóia da Doca; ou, se quisermos puxar as comparações ao trágico: como um morto que encontra a paz e a luz perpétua numa sepultura que os seus compraram e que trazem asseadinha... (...)".

Como pode alguém na flor da idade pensar semelhante coisa? E, todavia, fora exactamente isso que Maria vivenciara com os seus vinte também, uma morte prematura, um desânimo. Felizmente, soubera sair desse túmulo. Mas conhece alguns punhados de pessoas que se amarram a outras apenas para não estarem sós. Que vida é essa? Perdoem-lhes pois não sabem o que fazem. 

Nessa noite, Margarida vai até à proa, só, pensando sistematicamente em João Garcia, casado lá longe com Laura, pensando ele nela também. 
Faróis que se apagam e desistem de se iluminar... 
Observa o anel com as pedrinhas que tanto gostava de tirar e pôr do dedo (e com que João brincara, reparando nesse vício). De súbito, atira-o ao mar como se as memórias fossem destruídas e desaparecessem com o anel, para a "cucumária dos abismos"... 
Mas não, essas permanecem, e que triste é ler o destino de duas pessoas que se amam escolherem caminhos díspares e infelizes. "Não faças isso", diz Maria a Bidinha.

Maria Emília toca-lhe suavemente no ombro. Não sabe quanto tempo se deixara dormir. "Temos de nos arranjar para jantar". Estremunhada, com o livro no colo, Maria compreende onde está. Em sonhos, fora para bem longe dali, ao convés do navio, quase esbofetear Bidinha. De nada valia ter saudades de conversas profundas se nada se faz para as voltar a ter... pensou... e de nada valiam mais reflexões filosóficas àquela hora, "isso são outros catorze", como dizem nos Açores.

Está em São Jorge, no ano de 2022, no relvado do hotel, com uma vista soberba e há um jantar para fruir, uma mesa com queijos, mel e folhinhas de hortelã, uma mistura saborosíssima e inesquecível.

Carpe Diem Noctemque*



sábado, 25 de junho de 2022

MEMENTO HOMO



Co-Criações com Carlos Gomes


memento homo, quia pulvis es et in pulverem reverteris

Lembra-te, Homem, que és pó e em pó te voltarás a tornar
Génesis 3:19

sexta-feira, 24 de junho de 2022

Crônicas dos Açôures (III)

 "Do que é ser-se farol"





Desde criança que Maria admirava os faróis e os faroleiros. Queria de vivo ânimo visitar o Farol de São Pedro de Moel, conhecer por dentro aquele mester. Foi no Farol do Topo, na Fajã do Topo, em São Jorge, que o sonho se concretizou, já que o Farol dos Capelinhos, na Horta, fôra convertido em museu e erguia-se mumificado na paisagem de negrume.

A lâmpada requer os maiores desvelos, explica o faroleiro, estar límpida, translúcida, mesmo com aquela humidade característica, este desunha-se a esfregá-la. E se falhar? Há sempre uma lâmpada de reserva, a luz não se pode apagar nunca. Se tudo falir, faz-se uma fogueira, a luz-guia sempre brilha ao longe para os navios seguirem o seu caminho sem encalharem nas rochas, sem desviar a rota, evitando acidentes de maior, mesmo em dias de tempestade, nas Ilhas de Bruma.

Assim deverá ser um companheiro/a, reflectiu Maria, e ser também ela um farol, ambos dedicados a nunca deixar a luz esmair. Dois faróis que se iluminam, velando o caminho um do outro, sempre em evolução, apoiando-se mutuamente. Ser-se farol e porto de abrigo é a receita, porque o Amor é uma escolha, e não deixar a luz desvanecer ou toldar-se é mester diário e voluntário, a cada jorna, a cada passo. Iluminar o caminho e dar a mão, respeitar que cada um tem o seu, mas que há um propósito comum, e navegar sensatamente, mesmo quando as ondas causam temor e o mar está agitado.

O Amor é uma revolução, é querer agir. De nada serve esperar e ficar sentado a ver os navios passarem se a luz tremelica, há que lhe dar forças, lenha e lume, atiçar sempre, bases para o fogo se manter intenso e perene.


quarta-feira, 22 de junho de 2022

secreta arquitectura de água




Co-criações com Carlos Gomes

Palavras

Tocam-me
como lábios,
como beijos.
Pássaros sedentos de ramos
e de sombra,
pousam-me nos ombros.
A movimentos de asa,
desenham-me ainda um corpo
-secreta arquitectura de água,
rasgada no vento.


Luísa Dacosta, in A maresia e o sargaço dos dias

terça-feira, 21 de junho de 2022

Crônicas dos Açôures (II)

 "Matar cachorros a grito"





Às oito da matina iniciaram a subida para o Pico. Três horas e meia para cima.
Maria queria desistir na primeira etapa. Adivinhava o sofrimento que se avizinhava, o menisco a dar de si, a chuva e o vento a aumentar. O grupo unido não a deixou, não abandonamos ninguém, subimos juntos e descemos juntos. A uma hora de atingir a cratera, a parede de neblina levantou por cinco minutos, puderam compreender que estavam acima das nuvens, para lá da altura da Serra da Estrela.
Maria descobriu vários sentimentos, frustração por estar a chover e neblina, regozijo durante parcos minutos quando o sol abriu e perceberam o que a paisagem teria prometido, não fôra a meteorologia pregar-lhes partidas. As lágrimas vieram aos olhos de felicidade.
Mas chegaram lá acima e conseguiram ver o Piquinho durante uns cinco minutos apenas até toldar tudo de novo. As rajadas de vento levantavam a 150km/hora e uma colega, franzina e leve, deu uma cambalhota e só não caiu ravina abaixo porque foi agarrada pelos bons reflexos de outro companheiro do grupo.
Já ninguém subiu a última etapa do Piquinho nesse dia. Na verdade, já mais nenhum grupo empreendeu a subida, foram todas canceladas. O guia recomendava partirem quanto antes. Iniciaram imediatamente a descida, pois o frio não permitia descansar ou comer na cratera.
Tudo o que sobe tem de descer. Maria sabia que a problemática estava justamente aí. Já desde criança adorava subir às árvores, o pior era sair de lá de cima.
Afadigavam-se como formigas num carreiro organizado, mal respirando quase com o vento de frente, gélido.
Bloqueou várias vezes, parou, pensou que ficava ali, chorando de raiva a descer e ao mesmo tempo com um sentimento de superação.
Como dizia o seu paizinho, Maria ia ali num estado que "só Deus e ela é que sabiam.."
"Matar cachorros a grito", uma expressão de origem antiga brasileira mas muito usada pelos açorianos, aqui se aplicaria totalmente, um sentimento desesperado, de pequenez incrível contra a lava sólida e o gigante que se erguia, o ponto mais alto de Portugal. Só o saber que realmente a lava não escorregava e sentir a aderência das botas lhe trazia um pouco de paz, passageira, a cada passo, encharcada até à roupa íntima, apesar da capa impermeável, a Mãe-Natureza não perdoava um minuto e ela sofria com a decisão.
Mas orgulhosamente, lágrimas a escorrer do rosto em silêncio, vislumbrou a Casa da Montanha e dá em chover copiosamente então à chegada, e os pingos grossos de chuva misturavam-se com as lágrimas, começou a rir nervosamente, a trautear o I'm singing in the rain como louca, com a estupidamente feliz sensação de dever cumprido, se ultrapassara aquilo, ultrapassaria tudo.
Porque há sempre um raio de sol que trespassa as águas da chuva e o arco-íris há-de aparecer algures, quando menos se espera.

segunda-feira, 20 de junho de 2022

Dia Mundial dos Refugiados

https://tag.jn.pt/dia-mundial-dos-refugiados-por-um-mundo-mais-aberto-e-justo/






da subida

A João Rui de Sousa, que faleceu este fim de semana, aos 94 anos.

Ascensão

Beijava-te como se sobe uma escadaria:
pedra a pedra, do luminoso para o obscuro,
do mais visível para o mais recôndito
- até que os lábios fossem
não o ardor da sede, nem sequer a magia
da subida,
mas o tremor que é pétala do êxtase,
o lento desprender do sol do corpo
com o feliz quebranto dos meus dedos.

João Rui de Sousa, in 'Obstinação do Corpo'
(1928-2022)