quarta-feira, 27 de agosto de 2014

E o corpo dança porque aprendeu com as ondas

"A dança traz o silêncio, pensou Marta, cadência apenas, alegria do corpo. Alguns dos dançarinos, amigos ou gente de outras vilas, sabiam-no sem ter o saber de Marta.
Dançavam calados, oferecendo-se à dança, desenhada segundo os costumes, os de uma cultura lenta e singular, que os unia entre si, os que a aceitavam e os que a praticavam."

Fiama Hasse Pais Brandão (1999), Sob o Olhar de Medeia, Relógio D'Água, Santa Maria da Feira, p.137

sexta-feira, 18 de julho de 2014




"O homem é, por desgraça, uma solidão: Nascemos sós, vivemos sós e morremos sós".

Miguel Torga

(que talvez tenha proferido esta frase no elogio fúnebre de Afonso Duarte, poeta português que faleceu no dia 5 de Março de 1958).

terça-feira, 15 de julho de 2014

O homem é bailarino pela sua própria condição...O que se lhe acrescenta é pouco, quando realmente dança: a afirmação expressa de que o seu destino é não ter peso"

Vergílio Ferreira (1969), Invocação ao Meu Corpo, Portugália, Lisboa, pp.301-302.

sexta-feira, 4 de julho de 2014

Grita comigo

"Merda para a choradeira!
- Grande é o homem e a vida, meu caro! Limpa o rabo a isso!
Apressa-te, apressa-te! A vida urge, a vida não espera. Que cretinice, por exemplo, dizeres "faz hoje dois anos que vim para a Universidade" ou "daqui a três anos estou formado". Não digas! Não digas! Não digas que "faltam três anos para que a minha formatura seja uma coisa morta". Grita comigo, não que "faço hoje vinte e três anos" mas que "faz hoje vinte e três anos que eu estava para ser o que vou ser hoje". Grita comigo qualquer coisa que não seja a morte antes da morte."

Vergílio Ferreira (1990), Apelo da Noite, Venda Nova, Bertrand Editora, p.25.

domingo, 22 de junho de 2014

Aqui, no Pedrógão


Faço minhas estas palavras

“Há coisas que nos marcam para sempre. Uma imagem, um cheiro, um som, uma palavra, um silêncio.
O Pedrógão também me marcou para sempre. O seu Mar imensamente azul, e aquele seu Sol que sempre nasce tímido, mas que se põe encostado ao azul das águas, deslumbrado, foram, quantas vezes, os meus companheiros!...
No Pedrógão passei muitos dos meus tempos de lazer, mas também de reflexão para a acção. (...) Aqui, no Pedrógão, encontro um sol que se põe em paz por entre tons de vermelho e de amarelo vivos, renasço em felizes e saudosas recordações de outros tempos, revivo momentos de felicidade simples, esqueço-me do dia de amanhã, das filas de trânsito, do egoísmo mesquinho de alguns e da perfídia maldosa de tantos outros.
Aqui, no Pedrógão, construo a utopia do espírito de solidariedade, da vivência da amizade, de partilha de sentimentos e de experiências. Este sítio é, para mim, como que a mesa de café onde me encontro com amigos e discuto de tudo... é o porto de abrigo onde atraco o meu barco viageiro para refazer forças... é a box onde encosto o carro da vida quando finalizo mais uma corrida...
Quando era muito novo, e só vinha no mês de Agosto, a chegada era um alvoroço mas a partida era dolorosa. Sentado no paredão da esplanada, pensava, olhando o mar, como teria começado tudo aquilo, quem teria sido o primeiro habitante e por que teria escolhido aquele sítio de sonho, entregue às gaivotas, aos ventos e às espumas.
Lá estão elas, acima do mar e da costa, brancas, ligeiras, finas. Elas voam, puras e livres, como eu gostava de ser!...”

António Inácio Nogueira, Praia do Pedrógão, Locais, Gentes e Memórias, Magno Edições, 2006, partes do Prefácio.

quarta-feira, 14 de maio de 2014

Mais

Mais do que tudo, odeio
Tantas noites em flor da Primavera,
Transbordantes de apelos e de espera,
Mas donde nunca nada veio.



Sophia de Mello Breyner Andresen, Obra Poética I, Caminho

quinta-feira, 20 de março de 2014

também apanhaste o teu cuspo

"O reconhecimento de um homem por outro homem, não do lado triunfante mas da humilhação, não do da alegria mas do sofrimento, não do da saúde mas de um corpo apodrecido  (...) Mas é preciso olhar-me aí, ver-me aí metido no teu corpo, sem pensar muito no que está antes e depois", p.70

"Não me violentaram o corpo, foi ele que se desagregou. De todo o modo, acabou-se, meu irmão no sofrimento. (…) Gostava em todo o caso de saber como te aguentarias se te visses a apodrecer. Não te queixarias do Pai que te abandonou mas se calhar de todos os teus irmãos em humanidade. Ou talvez te queixasses só de ti, do teu corpo vil, porque só ele te tinha abandonado. (…) Mas não quero diminuir-te o sofrimento, que sempre é de doer. Porque de todo o modo também apanhaste o teu cuspo. Não apenas dos que te cuspiram mas do teu próprio corpo em ruína. Deves ter olhado as tuas chagas e sentir-te ofendido na destruição do teu corpo, da tua inteireza, do conforto que devias ter em sentir-te todo em ti. Porque só um corpo destruído é tão humilhante", p.73

Vergílio Ferreira, Em Nome da Terra, 2004, Bertrand Editores.

Proveniente de Trás-os-Montes, possivelmente de finais do séc. XVII. Fotografia cedida pela Professora Berta Afonso.