quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

com uma esferográfica cravada no coração

Mais Nada se Move em Cima do Papel

mais nada se move em cima do papel
nenhum olho de tinta iridescente pressagia
o destino deste corpo

os dedos cintilam no húmus da terra
e eu
indiferente à sonolência da língua
ouço o eco do amor há muito soterrado

encosto a cabeça na luz e tudo esqueço
no interior desta ânfora alucinada

desço com a lentidão ruiva das feras
ao nervo onde a boca procura o sul
e os lugares dantes povoados
ah meu amigo
demoraste tanto a voltar dessa viagem

o mar subiu ao degrau das manhãs idosas
inundou o corpo quebrado pela serena desilusão

assim me habituei a morrer sem ti
com uma esferográfica cravada no coração

Al Berto, “O Medo”

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

Segurar a mãos ambas um sentido para tudo isto

-Conhecias o Pina? Sim, o noivo da Ester. Teve um desastre, operei-o, morreu.
-O Pina...?
Mas reagiu prontamente, animando o marido:
- Fizeste o que pudeste, tenho a certeza. Porque te afliges?
-Tinha vísceras esmagadas, um braço esmagado, Paula. Operei-o, morreu. Ia casar em breve. Morreu.
Ela ficou em silêncio, de mãos dadas no regaço, e a noite cresceu entre eles - uma noite maravilhosa, absoluta, fremente de memórias. "Recuperar a vida com a morte no meio. Acreditar, embora se saiba que se acredita no nada. Tão difícil. E tão raivosamente necessário.".
-Se tu tocasses um pouco, Paula.
-Mas tu... Tão tarde, Cipri. Os filhos dormem.
-Baixinho.
Paula não tocou. Mas armou o gira-discos, regulou a intensidade do rádio. E a noite revelou-se numa profunda harmonia, como uma verdade tranquila. Cirpiano abriu as janelas para a cidade, para o rio ao longe, olhou ao alto, no céu húmido, pelos espaços abertos entre as nuvens, o brilho fugitivo das estrelas. "Segurar a mãos ambas um sentido para tudo isto. E ser feliz na resignação". Bach cantava. Cantava nos limites do universo para a luz fria dos astros, para o silêncio dos espaços, fechado de recolhimento, de melancolia grave. E Cipriano, segurando a mão de Paula, sentia comovidamente que o mistério do mundo, da vida e da morte, se revelava a seus olhos, apaziguado, como uma simples flor aberta...

Vergílio Ferreira (1982), Cântico Final, Círculo de Leitores, p.118.

quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

Que pretendes?, perguntou em grego. Venho render-te, disse o homem.



  A sua viagem fora preparada com todo o pormenor. Aterrou no aeroporto de Hania, recolheu a mala, passou pelo balcão da Hertz, recolheu as chaves do carro. Três dias?, perguntou-lhe o empregado, atónito. Que tem isso de estranho?, disse ele. Ninguém vem a Creta fazer três dias de férias, respondeu o empregado com um sorrido. É um fim-de-semana prolongado, disse ele, para o que tenho de fazer, chega.
  Era bonita, a luz de Creta. Não era mediterrânica, era africana; para chegar ao Beach Resort levaria hora e meia, duas, no máximo, mesmo que fosse devagar havia de chegar pelas seis, um duche e punha-se logo a escrever, o restaurante do hotel estava aberto até às onze, era quinta-feira à tarde, contou pelos dedos: sexta, sábado, e domingo inteirinhos, três dias por inteiro. Era o bastante: já levava tudo escrito na cabeça.
  Por que virou à direita naquele semáforo era coisa que não saberia dizer. Os pilares da via rápida avistavam-se perfeitamente, a uns quatrocentos ou quinhentos metros entraria na marginal, a caminho de Heraklion. E no entanto, virou à direita, onde uma pequena placa azul assinalava uma localidade desconhecida. Pensou que já lá estivera, porque viu tudo num segundo: uma estrada ladeada de árvores com meia dúzia de casas, uma praça acanhada com um monumento desengraçado, uma moldura rochosa, uma montanha. Foi um fulgor. Uma daquelas coisas estranhas que a medicina não sabe explicar, disse para com os seus botões, chamam eles a isto déjà vu, algo que já se viu, nunca me tinha acontecido. Mas aquela explicação não o tranquilizou, porquanto o já vivido persistia, era mais forte do que aquilo que ele via, envolvia como uma membrana a realidade circunstante, as árvores, os montes, as sombras do entardecer, o próprio ar que respirava. Sentiu-se tomado por uma forte vertigem e receou ser sugado por ela, mas foi coisa de um instante porque, ao dilatar-se, aquela sensação sofria uma estranha metamorfose, como se uma luva, ao voltar-se do avesso, levasse consigo a mão que a protegia. Tudo mudou de perspectiva, num ápice experimentou a embriaguez da descoberta, uma náusea subtil e mortal melancolia.
  Mas também um sentimento infinito de libertação, como quando percebemos finalmente qualquer coisa que sabíamos desde sempre e queríamos ignorar: não era o já visto que o engolia num passado nunca vivido, ele é que o capturava num futuro ainda por viver. Enquanto conduzia naquela estrada rodeada de olivais a caminho das montanhas, sabia que a certa altura havia de encontrar uma velha chapa ferrugenta cravejada de buracos onde estava escrito: Monastiri. E que havia de segui-la. Agora tudo se tornara claro.

António Tabucchi, “Contratempo”, in O Tempo Envelhece Depressa, D.Quixote, 20094,  p.143


segunda-feira, 13 de outubro de 2014

A Avó Luisette


A Avó Luisette

Por vicissitudes várias, desencontros, quezílias familiares, outros absurdos, a Avó Luisette, avó paterna, nunca foi uma Avó presente até eu me indignar do alto dos meus 12 anos rebeldes e decidir que, como todos os adolescentes, queria voltar a dizer a frase tão natural: “Vou a casa da Avó”.
E fui mesmo, a casa dos Avós, aliás.
Breve foi o nosso encontro, uma vez mais por vicissitudes várias, desencontros, quezílias familiares, outros absurdos, mas a Avó Luisette esteve, está e estará sempre presente, sobretudo nas pequenas coisas que são as que não se esquecem nunca.
Nos meus doze, treze, catorze anos rebeldes e pouco femininos, via uma Avó bonita, de brincos e colares de pérolas e verniz cor-de-rosa nas unhas. Não esqueço o dia em que me colocou o colar ao pescoço e me pavoneei casa fora sentindo-me uma senhora.
A Avó Luisette foi a avó que me ensinou os sinais de trânsito, que me ensinou a fazer ovos mexidos! (Pudera! Quando não se podia comer ovos mexidos ao lanche, em casa, porque os pais proibiam, aproveitava-se para fazer essas maroteiras em casa dos Avós com os primos! E com que alegria eles nos deixavam! O Avô Rui até fotografias disso tirava!)
Todos os dias faço ainda questão de escrever à mão, apesar do uso diário do computador, porque não esqueço a caligrafia linda que a Avó tinha e o brio que me incutiu de manter sempre a minha também! Guardo as primeiras cartas que me foram endereçadas, com o destinatário “ Ao cuidado da Exma Menina Ana Maria”, escritas do Pedrógão pela letra bonita da Avó! E lá estão guardados os postais que eu lhe mandava, com o Mickey, e a falar de bandas de música e das férias, os primeiros escritos que enviei por correio!
Foi ainda a Avó Luisette que me ensinou a bordar...Ponto de Cruz, Ponto Pé de Flor... Crochet é que a Avó não conseguiu, não por falta de mérito pedagógico seu, mas pela minha azelhice com as agulhas! Mas ainda hoje, sempre que possível, lá sai mais um bordado...
Não sei se terei filhos, muito menos netos, mas sei que eles vão saber quem foi a Avó Luisette e o que me ensinou, e só espero ter o sorriso e a paciência para transmitir esses ensinamentos como ela teve para comigo, paciência infinita para escutar as minhas ininterruptas perguntas, a minha vontade teimosa e para ter-me concedido tratá-la por "Tu", por muito que lhe fosse estranho.
Bem-haja.

Ana Seiça Carvalho
Valência, 13 de Outubro de 2014

quinta-feira, 28 de agosto de 2014

Por que foi então que te roubaram o mundo?

“Carta a Josefa, minha avó” (1968)

No ano de 1968, José Saramago publicou no jornal A Capital, de Lisboa, a crónica Carta a Josefa, minha avó. Anos mais tarde, ela seria publicada no livro Deste Mundo e do Outro. Abaixo segue a reprodução da página do jornal A Capital em que foi originalmente publicado o texto.carta



Carta para Josefa, minha avó

Tens noventa anos. És velha, dolorida. Dizes-me que foste a mais bela rapariga do teu tempo — e eu acredito. Não sabes ler. Tens as mãos grossas e de formadas, os pés encortiçados. Carregaste à cabeça toneladas de restolho e lenha, albufeiras de água.

Viste nascer o sol todos os dias. De todo o pão que amassaste se faria um banquete universal. Criaste pessoas e gado, meteste os bácoros na tua própria cama quando o frio ameaçava gelá-los. Contaste-me histórias de aparições e lobisomens, velhas questões de família, um crime de morte. Trave da tua casa, lume da tua lareira — sete vezes engravidaste, sete vezes deste à luz.

Não sabes nada do mundo. Não entendes de política, nem de economia, nem de literatura, nem de filosofia, nem de religião. Herdaste umas centenas de palavras práticas, um vocabulário elementar. Com  isto viveste e vais vivendo. És sensível às catástrofes e também aos casos de rua, aos casamentos de princesas e ao roubo dos coelhos da vizinha. Tens grandes ódios por motivos de que já perdeste lembrança, grandes dedicações que assentam em coisa nenhuma. Vives. Para ti, a palavra Vietname é apenas um som bárbaro que não condiz com o teu círculo de légua e meia de raio. Da fome sabes alguma coisa: já viste uma bandeira negra içada na torre da igreja.(Contaste-mo tu, ou terei sonhado que o contavas?)

Transportas contigo o teu pequeno casulo de interesses. E, no entanto, tens os olhos claros e és alegre. O teu riso é como um foguete de cores. Como tu, não vi rir ninguém. Estou diante de ti, e não entendo. Sou da tua carne e do teu sangue, mas não entendo. Vieste a este mundo e não curaste de saber o que é o mundo. Chegas ao fim da vida, e o mundo ainda é, para ti, o que era quando nasceste: uma interrogação, um mistério inacessível, uma coisa que não faz parte da tua herança: quinhentas palavras, um quintal a que em cinco minutos se dá a volta, uma casa de telha-vã e chão de barro.

Aperto a tua mão calosa, passo a minha mão pela tua face enrugada e pelos teus cabelos brancos, partidos pelo peso dos carregos — e continuo a não entender. Foste bela, dizes, e bem vejo que és inteligente. Por que foi então que te roubaram o mundo? Quem to roubou?

Mas disto talvez entenda eu, e dir-te-ia o como, o porquê e o quando se soubesse escolher das minhas palavras as que tu pudesses compreender. Já não vale a pena. O mundo continuará sem ti — e sem mim. Não teremos dito um ao outro o que mais importava. Não teremos, realmente? Eu não te terei dado, porque as minhas palavras não são as tuas, o mundo que te era devido. Fico com esta culpa de que me não acusas — e isso ainda é pior. Mas porquê, avó, por que te sentas tu na soleira da tua porta, aberta para a noite estrelada e imensa, para o céu de que nada sabes e por onde nunca viajarás, para o silêncio dos campos e das árvores assombradas, e dizes, com a tranquila serenidade dos teus noventa anos e o fogo da tua adolescência nunca perdida:

 «O mundo é tão bonito, e eu tenho tanta pena de morrer!»

É isto que eu não entendo — mas a culpa não é tua.

Retirado daqui.

Vídeo realizado por André Raposo, adaptado do texto de Saramago 

quarta-feira, 27 de agosto de 2014

E o corpo dança porque aprendeu com as ondas

"A dança traz o silêncio, pensou Marta, cadência apenas, alegria do corpo. Alguns dos dançarinos, amigos ou gente de outras vilas, sabiam-no sem ter o saber de Marta.
Dançavam calados, oferecendo-se à dança, desenhada segundo os costumes, os de uma cultura lenta e singular, que os unia entre si, os que a aceitavam e os que a praticavam."

Fiama Hasse Pais Brandão (1999), Sob o Olhar de Medeia, Relógio D'Água, Santa Maria da Feira, p.137

sexta-feira, 18 de julho de 2014




"O homem é, por desgraça, uma solidão: Nascemos sós, vivemos sós e morremos sós".

Miguel Torga

(que talvez tenha proferido esta frase no elogio fúnebre de Afonso Duarte, poeta português que faleceu no dia 5 de Março de 1958).